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O método sociológico de Durkheim

Por: Bianca Wild

Durkheim parte da idéia fundamental de Comte de que a sociedade deve ser vista como um organismo vivo. Também concordava com o pressuposto de que as sociedades apenas se mantém coesas quando de alguma forma compartilham sentimentos e crenças comuns. Entretanto critica Comte na sua perspectiva evolucionista, pois entende que os povos que sucedem os anteriores não necessariamente são superiores, apenas são diferentes em sua estrutura, seus valores, seus conhecimentos, sua forma organizacional. Entende que a seqüência das sociedades adapta-se melhor a semelhança de uma árvore cujos ramos se orientam em sentidos opostos que uma linha geométrica evolucionista. Também Spencer foi alvo de críticas porquanto Durkheim que, de forma geral, estendeu esta crítica a uma série de outros pensadores. Segundo Durkheim muitos sociólogos trabalhavam não sobre o objeto em si, mas de acordo com a idéia pré-estabelecida acerca do fenômeno. Assim, ele entendia que a perspectiva de analise de Spencer não definia sociedade e sim contemplava sua visão particular de como efetivamente eram as sociedades. Também ponderou como ser possível encontrar a fórmula suprema da vida social quando ainda ignorava-se as diferentes espécies de sociedades, suas principais funções e suas leis. Como então empreender-se em um estudo da evolução das mesmas quando não se sabe exatamente o que são e a que vieram.

Entretanto antes gostaria de mapear alguns pontos que me parecem fundamentais para compreender o pensamento de Durkheim, cuja base assenta-se em alguns pressupostos ou noções fundamentais a serem detalhadas adiante:

  • Os fatos sociais devem ser tratados como coisas;
  • A análise dos fatos sociais exige reflexão prévia e fuga de idéias pré-concebidas;
  • O conjunto de crenças e sentimentos coletivos são a base da coesão da sociedade;
  • Destaca o estudo da moral dos indivíduos; e
  • A própria sociedade cria mecanismos de coerção internos que fazem com que os indivíduos aceitem de uma forma ou de outra as regras estabelecidas (a explicação dos fatos sociais deve ser buscada na sociedade e não nos indivíduos – os estados psíquicos, na verdade, são conseqüências e não causas dos fenômenos sociais)

O MÉTODO SOCIOLÓGICO DE DURKHEIM

Idéias centrais do método sociológico de Durkheim

Podemos dizer que o método sociológico de Durkheim apresenta algumas idéias centrais, que percorrem toda a extensão de sua visão sociológica. São elas:

1) Contraposição ao conhecimento filosófico da sociedade: A filosofia possui um método dedutivo de conhecimento, que parte da tentativa de explicar a sociedade a partir do conhecimento da natureza humana. Ou seja, para os filósofos o conhecimento da sociedade pode ser feito a partir de dentro, do conhecimento da natureza do indivíduo. Como a sociedade é formada pelos indivíduos, a filosofia tem a prática de explicar a sociedade (e os fatos sociais) como uma expressão comum destes indivíduos. De outro lado, se existe uma natureza individual que se expressa coletivamente na organização social, então pode-se dizer que a história da humanidade tem um sentido, que deve ser a contínua busca de expressão desta natureza humana. Para Adam Smith, por exemplo, dado que o homem é, por natureza, egoísta, motivado por fatores econômicos e propenso às trocas, a sociedade de livre mercado seria a plena realização desta natureza. Para Hegel, a história da humanidade tendia a crescentemente afirmar o espírito humano da individuação e da liberdade. Para Marx, a história da sociedade era a história da dominação e da luta de classes, e a tendência seria a afirmação histórica, por meio de sucessivas revoluções, da liberdade humana e da igualdade, por meio do socialismo.

Para Durkheim, estas concepções eram insuportáveis, pois eram deduções e não tinham validade científica, eram crenças fundamentadas em concepções a respeito da natureza humana. Durkheim acreditava que o conhecimento dos fatos sociológicos deve vir de fora, da observação empírica dos fatos.

2) Os fenômenos sociais são exteriores aos indivíduos: a sociedade não seria simplesmente a realização da natureza humana, mas, ao contrário, aquilo que é considerado natureza humana é, na verdade, produto da própria sociedade. Os fenômenos sociais são considerados por Durkheim como exteriores aos indivíduos, e devem ser conhecidos não por meio psicológico, pela busca das razões internas aos indivíduos, mas sim externamente a ele na própria sociedade e na interação dos fatos sociais. Fazendo uma analogia com a biologia, a vida, para Durkheim, seria uma síntese, um todo maior do que a soma das partes, da mesma forma que a sociedade é uma síntese de indivíduos que produz fenômenos diferentes dos que ocorrem nas consciências individuais (isto justificaria a diferença entre a sociologia e a psicologia).

3) Os fatos sociais são uma realidade objetiva: ou seja, para Durkheim, os fatos sociais possuem uma realidade objetiva e, portanto, são passíveis de observação externa. Devem, desta forma, ser tratados como "coisas".

4) O grupo (e a consciência do grupo) exerce pressão (coerção) sobre o indivíduo: Durkheim inverte a visão filosófica de que a sociedade é a realização de consciências individuais. Para ele, as consciências individuais são formadas pela sociedade por meio da coerção. A formação do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas, princípios morais, religiosos, éticos, de comportamento, etc. que balizam a conduta do indivíduo na sociedade. Portanto, o homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela.

que é um "fato social"?

Nas palavras do próprio Durkheim

"É fato social toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda a maneira de fazer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais".

Ou ainda

"O fato social é tudo o que se produz na e pela sociedade, ou ainda, aquilo que interessa e afeta o grupo de alguma forma”.

Os fatos sociais, para Durkheim, existem fora e antes dos indivíduos (fora das consciências individuais) e exercem uma força coercitiva sobre eles (ex. as crenças, as maneiras de agir e de pensar existem antes dos indivíduos e condicionam coercitivamente o seu comportamento).

Durkheim argumenta, contrariando boa parte do pensamento filosófico, que "somos vítimas da ilusão que nos faz crer que elaboramos, nós mesmos, o que se impõe a nós de fora". E, respondendo àqueles que não crêem nesta coerção social que sofrem os indivíduos porquê não se pode senti-la, argumenta que "o ar não deixa de ser pesado embora não sintamos seu peso". Para Durkheim, o fato social é um resultado da vida comum, e ele propõe isolá-los para estudá-los. Desta forma, a sociologia deveria preocupar-se essencialmente com o estudo dos fatos sociais, de forma objetiva e científica.

Sobre a observação dos fatos sociais:

Para Durkheim, a ciência deveria explicar, não prescrever remédios. Este, para ele, era o problema da filosofia, ela tentava entender a natureza humana, pois aí, tudo o que estivesse de acordo com esta natureza era considerado bom, e tudo o que não estivesse era considerado ruim.

Para Durkheim, a observação dos fatos sociais deveria seguir algumas regras, tais como:

A. Os fatos sociais devem ser tratados como COISAS.

Para Durkheim, "é coisa tudo aquilo que é dado, e que se impõe à observação". Nem a existência da natureza humana nem o sentido de progresso no tempo, como admitia Comte por exemplo, fazia sentido, segundo Durkheim, dentro do método sociológico. Eles são uma concepção do espírito. Durkheim, neste sentido, é essencialmente objetivista, empirista e indutivista, ao contrário de Comte, o fundador da sociologia, que era considerado por ele como subjetivista e filosófico.

B. Uma segunda concepção importante no método sociológico de Durkheim, é de que, para ele, o sociólogo ao estudar os fatos sociais, deveria despir-se de todo o sentimento e toda a pré-noção em relação ao objeto.

C. Terceiro, o pesquisador deveria definir precisamente as coisas de que se trata o estudo a fim de que se saiba, e de que ele saiba, bem o que está em questão e o que ele deve explicar.

D. E quarto, a sensação, base do método indutivo e empirista, pode ser subjetiva. Por isto, deveria-se afastar todo o dado sensível que corra o risco de ser demasiado pessoal ao observador.

Sobre a construção de tipos sociais

Uma outra questão importante no método de Durkheim parte da necessidade de agrupar sociedades em tipos sociais, segundo a sua semelhança. Para o método sociológico, não interessava nem a perspectiva dos historiadores, que viam na história uma diversidade de sociedades muito grande, nem a filosófica, que agrupava toda a evolução histórica na idéia de humanidade, pela qual perpassava a realização da natureza humana. Segundo Durkheim, escapamos a esta alternativa tão logo se reconheça que, entre a multidão confusa das sociedades históricas (a infinidade de sociedades diferentes descrita pelos historiadores) e o conceito único, mas ideal, de humanidade (dos filósofos), existem intermediários que são as espécies sociais.

A constituição destes tipos sociais, de suma importância para a sociologia uma vez que Durkheim afirmava que a concepção de normal e patológico é relativa a cada tipo social, deveria seguir um método: (a) estudar cada sociedade individualmente; (b) constituir monografias exatas e detalhadas; (c) compará-las achando semelhanças e diferenças; (d) classificar os povos em grupos, segundo estas semelhanças e diferenças.

Este seria, para Durkheim, um método somente admissível para uma ciência da observação. O estudo e a representação destes tipos sociais foi descrita por ele como uma área específica da sociologia, denominada Morfologia Social, numa clara alusão aos estudos semelhantes na biologia.

Sobre a explicação dos fatos sociais

Durkheim afirmava que seus antecessores na sociologia (Comte e Spencer) explicavam os fatos sociais pela sua utilidade. Assim, para Comte, o progresso existe para melhorar a condição humana, ou para Spencer, para tornar o homem mais feliz. A família, para Spencer, se transformara pela necessidade de concilhar cada vez mais perfeitamente o interesse dos pais, dos filhos e da sociedade. Assim, os sociólogos tendiam a normalmente deduzirem o fato dos fins, ou seja, a explicação suprema da vida coletiva consistiria em mostrar como ela decorre da natureza humana em geral. Para Durkheim, porém, este método era errado. Segundo ele

"Mostrar como um fato é útil não explica como ele surgiu nem como ele é o que é" . "Para explicar um fenômeno social é preciso pesquisar separadamente a causa eficiente que ele produz e a função que ele cumpre" . Apesar disto, "para explicar um fato de ordem vital não basta explicar a causa da qual ele depende, é preciso também ao menos na maior parte dos casos, encontrar a parte que lhe cabe no estabelecimento desta harmonia geral".

Para Durkheim, ao invés de buscar a causa dos fatos sociais nos fins ou na função que ele desempenha, "a causa determinante de um fato social deve ser buscada entre os fatos sociais antecedentes, e não entre os estados de consciências individuais". Por outro lado, "a função de um fato social deve sempre ser buscada na relação que ele mantém com algum fim social" .

Sobre a relação de causalidade

Dado que do fato social primeiro deve se buscar as causas para depois explicar-lhe as conseqüências (ou seja, não se pode deduzir a causa das sua conseqüência), deve-se Ter, então, rigor científico na explicação causal. Assim, para Durkheim

"Só existe um meio de demonstrar que um fenômeno é causa de outro: comparar os casos em que eles estão simultaneamente presentes ou ausentes e examinar se as variações que apresentam nessas diferentes combinações de circunstâncias testemunham que um depende do outro".

Ora, este é um método que advoga a observação e o estudo estatístico do fato e dos fatores que hipoteticamente podem lhe ser causadores, para que se possa estabelecer correlação entre eles. Para Durkheim, em razão da natureza dos fatos, os métodos científicos que decorriam desta concepção dividiam-se em dois grupos: (a) Experimentação, quando os fatos podem ser artificialmente produzidos pelo observador; e (b) Experimentação Indireta ou Comparação quando os fatos se produzem espontaneamente e não podem ser produzidos pelo observador.

Como pode-se observar, o método para se estabelecer a causalidade em sociologia, para Durkheim, seria a Experimentação Indireta ou Comparação. Comte também utilizava o método da comparação, mas a este ele adicionou o método histórico, pois ele tinha que buscar a finalidade e a evolução dos fenômenos, ou seja, o sentido de progresso. Isto, para Durkheim, não tina sentido em sociologia.

Segundo a sua concepção de causalidade, a um efeito corresponderia sempre uma mesma causa. Assim, se um fato tem mais de uma causa, então ele não é um fato único. Durkheim dá o exemplo do suicídio: se o suicídio depende de mais de uma causa, é porque, na verdade, existem várias espécies de suicídio (ele identificou três tipos, que decorriam de causas distintas, o suicídio egoísta, o altruísta e o anômico).

Mas não basta estudar a correlação entre os fatos sociais; é preciso que haja uma explicação racional vinculando-os. Assim,

"a concomitância (de dois fenômenos) pode ser devida não a um fenômeno ser a causa do outro, mas a serem ambos efeitos de uma mesma causa, ou então por existir entre eles um terceiro fenômeno, intercalado, mas despercebido, que é o efeito do primeiro e a causa do segundo".

Desta forma, os resultados da comparação deveriam ser interpretados.

O método de Durkheim, por ele próprio

Para Durkheim, o seu método sociológico tinha três características básicas que o distinguiam de seus antecessores na sociologia, como Comte e Spencer:

1. Ele é um método independente de toda a filosofia. Ou seja, ele não tem que Ter uma vinculação com qualquer visão filosófica ou ideológica do mundo. Ele não precisa afirmar nem a liberdade nem o determinismo; a sociologia, assim, não será nem individualista, nem comunista, nem socialista, no sentido que se dá vulgarmente a estas palavras.

2. É um método objetivo. Segundo Durkheim, ele é um método inteiramente dominado pela idéia de que os fatos sociais são coisas e como tais devem ser tratados.

3. É exclusivamente sociológico. Ou seja, não deriva da forma da filosofia tratar a sociedade, nem da psicologia, e nem das ciências naturais, uma vez que afirma que a sociedade tem uma natureza própria, que não é derivada nem da natureza humana, nem das consciências individuais, nem das constituições orgânicas dos indivíduos.

Referências:

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico.Martins fontes. 2007.

<http://www.culturabrasil.pro.br/durkheim.htm> acesso em 23 de Setembro de 2005 às 21:00 PM.

<http://gestor.ea.ufrgs.br/adp/durkheim_adp014_2000_1.html> acesso em 11 de Outubro de 2005 às 10:25 AM.

Bianca Wild.
Cientista social (Socióloga)
Bolsista do CNPq AT-NS

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