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Caminhando com Frei Damião no sertão nordestino: uma experiência missionária

Por: João Everton da Cruz

“Cada povo representa seus heróis históricos ou lendários de determinada maneira variável segundo os tempos; essas representações são conceituais. Enfim, cada um de nós tem determinada noção dos indivíduos com os quais está em contato, do seu caráter, da sua fisionomia, dos traços distintos do seu temperamento físico e moral: essas noções são verdadeiros conceitos”.

(Émile Durkheim, As Formas Elementares de Vida Religiosa, 1912, p.511.).

INTRODUÇÃO

Sabemos que o catolicismo popular no Brasil tem suas raízes mais profundas lá na Idade Média, aqui tendo chegado com os colonizadores portugueses. O estudo do catolicismo popular vem crescendo e possibilitando novos caminhos que tornam mais fáceis a compreensão e a explicação da cultura sertaneja do Nordeste brasileiro. Por outro lado, os estudos mostram que cerca de 80 % mais ou menos dos católicos da América do Sul praticam o catolicismo popular. Contudo, há uma dificuldade em conceituar o catolicismo popular, fixando-lhes os limites. Brevemente, vejamos, o que diz as Conclusões da Conferência de Puebla: “Entendemos por religião do povo, religiosidade popular ou piedade popular, o conjunto de crenças profundas marcadas por Deus, das atitudes básicas que derivam dessas convicções e as expressões que as manifestam”.

A origem deste artigo faz ressonância com a vivência do autor no semi-árido sergipano na década de 80. Sinto-me com dupla responsabilidade ao tecer esse texto. Primeiro, por ter conhecido, quando adolescente o Frei Damião de Bozzano (1898-1997). Segundo, porque estou pesquisando-o no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, o referido missionário capuchinho, sob à orientação do professor Dr. Pedro Assis Ribeiro de Oliveira.

Saltam aos olhos interrogações cada vez mais eloqüentes a respeito das interpretações do fenômeno religioso em torno de Frei Damião de Bozzano. O famoso missionário e frade capuchinho foi uma figura importante e polêmica na história do catolicismo popular sertanejo do Nordeste brasileiro.

Pio Giannotti era o seu nome de batismo e nasceu no dia 5 de novembro de 1898 em Bolzano, região do Ádige no norte da Itália. Logo quando adolescente já tinha aptidão para ingressar nos estudos religiosos. Foi aos 12 anos de idade que ele ingressou na Escola Seráfica de Camigliano. Aos 19 anos de idade foi convocado para o serviço militar, quando estourou a primeira guerra mundial, ficando nas trincheiras para lutar contra a Iugoslávia.

Terminado a atividade militar, largou a farda e retornou para o seminário. Nos anos de 1921 a 1925 estudou na Universidade Gregoriana de Roma. Foi um modesto aluno de Varnach em Teologia Fundamental. Com Billot estudou Eclesiologia. Com Cappello foi aluno de Direito e com Degrand em Patrologia. Chegou a diplomar-se em Filosofia, Direito Canônico e Teologia Dogmática. Ordenou-se Sacerdote na Igreja de São João de Latrão, chegando ao Brasil em 17 de maio de 1931.

Depois de três meses da sua chegada no Convento da Penha, em Recife, inicia-se o incansável trabalho missionário. Bom orador Frei Damião não era. Começa a pregar e a decorar os seus sermões, porque não dominava a nossa Língua Portuguesa. Os peregrinos ouviam o Frei não porque compreendiam o que ele falava nos sermões, mas na esperança dos milagres acontecerem na vida deles, embora que o frade nunca tenha dito que fizesse milagres, preferindo creditá-los a Deus.

Frei Damião é pela sua biografia e formação um Sacerdote que “bebeu na fonte” do catolicismo rigoroso quanto à sua ortodoxia teológica e moral. Foi profundamente marcado pelo clima da educação religiosa anti-modernista do papa Pio IX (1846-1878)1. A base ideológica e religiosa do frade está na Doutrina do Concílio de Trento2 (1545-1563), adotada pela Igreja Católica como reação à ameaçadora Reforma Protestante de Martinho Lutero (1483-1546).

O frade era um missionário obediente aos seus superiores e um exímio nas suas interpretações, já que para ele não havia ambigüidade nas cartas do papa. O seu encantamento pessoal vinha do passado medieval, do catolicismo luso-brasileiro, reforçando as devoções, o gosto pelas caminhadas – procissões -, o costume das romarias e a crença nos milagres.

O Frei Damião preenche o substrato religioso da cultura nordestina, pois depois de três anos da sua chegada ao Brasil, morre padre Cícero, com 90 anos de idade, e continuou a exercer uma enorme influência sobre largos setores da população nordestina através dos seus bons conselhos. O povo tinha padre Cícero como um messias e que era capaz de obrar milagres para os sertanejos.

O fato é que o missionário Frei Damião é transformado pela cultura nordestina no sucessor do Pe. Cícero, conhecido pelos devotos e peregrinos como“Meu Padim Ciço Romão”. Onde quer que ele se encontrasse, havia um clima de festa e devoção. Quando ele saía em procissão, a multidão gritava: “Valhei-me, Frei Damião! Valhei-me, meu Padim Ciço!” Esta manifestação devocional do povo do sertão nordestino vai cristalizar-se em Frei Damião de Bozzano. O significado da menção ao Padre Cícero era literal, numa gigantesca concentração popular ocorrida numa das suas missões em 1975, embora quase todos daquele lugar, como em todos os Estados do Nordeste, tinham a certeza de estarem diante próprio santo (Pe. Cícero) que cativou os nordestinos com suas pregações e seus milagres. Era comum, entre os nordestinos, a declaração de que o Padre Cícero estava vivo – em certos lugares do Nordeste -, quem afirmasse o contrário estava arriscando a sua própria vida. Através da função do conselheiro dentro da cultura do catolicismo popular nordestino é que podemos analisar o fenômeno religioso em torno de Frei Damião. O missionário reforçava, sistematicamente, o código moral sertanejo, tal como fizeram os demais patriarcas, como padre Antônio Pereira Ibiapina3, o Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido como beato Antônio Conselheiro4 e o padre Cícero Romão Batista5(1844-1934).

O eminente professor Abdalaziz Moura (1978), inquieto com os rumos do catolicismo popular, nos fala que muita gente se pergunta por que Frei Damião conseguiu chegar ao lugar a que chegou, por que o povo admirava tanto ele, por que as pessoas contam tantos milagres a seu respeito? A resposta sobre o prestígio de Frei Damião decorre mais dos seus conselhos do que das pregações que as massas aplaudem sem entender. Os seus conselhos são fixados na memória dos devotos.

O historiador Eduardo Hoornaert chegou a declarar que Frei Damião era um homem inteligente e altamente compreensivo. Por ocasião da indagação que os seminaristas do ITER fizeram acerca da Teologia da Libertação, o Frei Damião simplesmente riu e falou: “Vocês jovens façam a sua teologia da libertação. Deixem-se fazer as minhas pregações”. Porém, o mais o impressionante mesmo era a sua paciência. Paciência de um conselheiro que sabe o que faz. Horas e horas, dias e dias, semanas e semanas seguidas, sempre o mesmo ritmo de confissões sem fim. As suas intermináveis confissões marcaram a vida do Frei, muito mais do que as pregações que em grande parte passavam por cima da cabeça do povo.

A aplicação ao aconselhamento através do confessionário marcou essa vida e fez do missionário estrangeiro um conselheiro da cultura sertaneja dos nordestinos. Frei Damião foi durante mais de meio século o grande conselheiro daquela parte do Nordeste que si situa no norte do Rio São Francisco; na parte sul sua influência era bem menor. Era ao “homem santo” do cristianismo nordestino, na linha do padre Ibiapina, Antônio Conselheiro, padre Cícero. Alinhado ao modo de trabalhar de seus ilustres predecessores, por sinal todos grandes educadores do povo abandonado da região.

Vale recordar que somos frutos de uma herança cultural africana e indígena, daí o nascedouro onde o conselho é fundamental na vida das pessoas; mesmo com as dependências que ele pode causar; mesmo assim o conselho é considerado um grande valor para a vida. Além disso, sabemos que Frei Damião era um homem de grande generosidade, integridade moral e também o seu verdadeiro espírito de piedade atraía para ele milhares de devotos, que os acompanhavam para aconselhar-se espiritualmente.

Viveu, sem dúvida, a simplicidade e a humildade de um São Francisco de Assis, o pai da sua ordem religiosa. Sempre se manteve distante das desavenças do mundo, por vezes vítima de políticos aproveitadores. (Os ruralistas do Nordeste, ex-Presidente da República Fernando Collor de Mello). Sempre firme nas atividades religiosas e no zelo pela salvação das almas; parecia alguém imune a qualquer ambiente pecaminoso. Um mito em vida. Dedicou-se com amou a sua Igreja e ao seu trabalho missionário junto aos mais empobrecidos, mormente, ao Nordeste.

A reação contra a libertinagem da modernidade encontrou no missionário um apoio intransigente e corajoso. Em uma época de fraquezas diante das exigências da vida cristã, essa voz com sotaque de italiano levanta pelos sertões adentro. Pregava os ensinamentos de Jesus Cristo e convidava os fiéis para a observância da disciplina através dos seus sábios e bons conselhos. Vejamos, portanto, alguns dos seus ensinamentos que foram transmitidos ao povo nordestino. O frade em sintonia com a tradição popular, aconselhava: “Quem pecou, não peque mais; quem roubou, não roube mais. As pessoas que furtam vão para as profundezas do inferno...” “O matrimônio só é quebrado por morte ou do esposo ou da esposa. Quem deixa o casamento religioso para se casar com outro no civil está no inferno de cabeça para baixo”. Acreditamos que aí se deve procurar a raiz do fenômeno de Frei Damião. As pessoas necessitavam desta orientação sobre as formas do bom comportamento humano. Por isso a importância do conselheiro na cultura popular nordestina.

Apresentamos duas e breves entrevistas que fizemos em meados de julho do ano corrente com duas pessoas. Uma entrevista foi feita com uma benzedeira e parteira que chegou a confessar e pedir conselhos ao velho capuchinho. Já a segunda entrevista foi com o Padre Mário César.

Da entrevista realizada com Dona Josefa Maria da Silva Santos, 63 anos de idade, conhecida como Josefa da Guia, residente na cidade de Poço Redondo, Sergipe, Alto Sertão, colhemos as seguintes palavras.

Fizemos a pergunta:

- “O que a Senhora conhece sobre Frei Damião?”

Ela me respondeu:

- “Frei Damião foi um pastor conselheiro e servo das humanidades. Nós somos uma ovelha e abaixo de Deus é o Frei Damião. Ele era um bom conselheiro. Quando o padre Cícero se mudou daqui para melhor, ficamos sem os seus conselhos. Mas Deus mandou Frei Damião que ficou no lugar do padre Cícero como conselheiro”.

Ao entrevistar o Pe. Mário César, Vigário da Paróquia de Nossa Senhora Conceição em Poço Redondo. Fizemos duas perguntas ao padre. A primeira indagação foi:

- “O que o Senhor tem a dizer acerca de Frei Damião e padre Cícero?”

O padre me respondeu:

- “Primeiramente Frei Damião é um Santo. Cícero e Damião para o povo sertanejo é uma coisa só. Existe uma espiritualidade que se encontra marcada pelo messianismo herdado pelo Pe. Ibiapina. Portanto, não há uma separação entre espírito e matéria. Há uma presença do trágico na devoção dos romeiros”.

Fizemos a segunda indagação:

-“Por que o povo gostava de se confessar com o Frei Damião?”

Ele me respondeu:

Porque ele tinha fama de Santo. A sua fama se espalhou devido ao seu visual, a sua imagem, o aspecto performático. Também pela sua austeridade: o jejum, a penitência. O povo dizia que ele não dormia, não caminhava. As pessoas chegavam a dizer que ele voava numa nuvenzinha. Naquela época, as pessoas viviam aflitas pelo fim do mundo. O sucesso de Frei Damião é que ele provocava no povo uma sublimação, um enlevo coletivo. Não com relação ao que faz o neo-pentecostalismo hoje. Não era um show como se faz hoje nas Igrejas e nas praças. O show era a própria imagem do Frei. Como todo carismático ele foge do controle da Igreja enquanto Instituição”.

A vibração dos devotos era em função da figura santa de Frei Damião. Leonardo Boff, conhecido como o pai da Teologia da Libertação no Brasil e teólogo, é enfático em dizer que os pais passaram aos filhos o que Frei Damião, em suas missões, sempre repetia. Ele simbolizava a continuidade, o patrimônio cultural do povo sertanejo do Nordeste brasileiro. Os seus milagres e os seus aconselhamentos confirmavam a herança recebida. A bem da verdade, o povo queria era sempre tocá-lo, vê-lo, ficar perto dele, sentir a sua santidade.

A relevância dada ao fenômeno religioso pode ser estudado pelo substrato religioso presente na cultura nordestina. É incontestável que exista na cultura popular nordestina sertaneja a transferência de representação simbólica acumulada ao longo da história. O sucesso atribuído ao missionário Frei Damião, o tradicional catolicismo já tinha atribuído ao Pe. Cícero, somente mudou a geografia e o tempo. Constata-se, nos dias atuais, entre o povo do sertão nordestino, que ele é o conselheiro continuador do padrinho Cícero do Juazeiro.

A IDENTIDADE RELIGIOSA SERTANEJA

Para melhor compreendermos a identidade religiosa dos nordestinos, nada mais adequado do que começar fazendo uma célebre citação das maiores expressões da literatura brasileira, o escritor Euclides da Cunha (1866-1909):

“A princípio êste reza, olhos postos na altura. O seu primeiro amparo é a fé religiosa. Sobraçando os santos milagreiros, cruzes alçadas, andores erguidos, bandeiras do Divino ruflando, lá se vão, descampados em fora, famílias inteiras – não já os fortes e sadios senão os próprios velhos combalidos e enfermos claudicantes, carregando aos ombros e à cabeça as pedras dos caminhos, mudando os santos de uns para outros lugares. Ecoam largos dias, monótonas, pelos ermos, por onde passam as lentas procissões propiciatórias, as ladainhas tristes. Rebrilham longas noites nas chapadas, pervagantes, as velas dos penitentes”. (Cunha, 1967, p. 101.).

Estudar o catolicismo popular partindo das pesquisas já existentes no intuito de desvendar a partir do povo, de suas crenças e lendas que envolveram o religioso missionário capuchinho Frei Damião de Bozzano que mais de 60 anos esteve dedicado às santas missões do Nordeste brasileiro. A pesquisa tem a sua validade no momento em que um homem de batina surrada percorre povoados, pequenas e médias cidades do sertão nordestino prometendo o fogo do inferno aos pecadores e o paraíso aos justos.

Daí que estudar e compreender as raízes do catolicismo popular sertanejo é um desafio para cientistas sociais e teólogos. E assim procedendo podemos alcançar como se articula a mística existente e junto com ela encontrar meios de expressão que possam reunir com uma cultura autônoma, da solidariedade, da democracia, cultura que inviabilize a manipulação política e religiosa. O estudo em questão pode e deve contribuir para o fato de que movimentos desta natureza dizem respeito à tradição e à cultura popular sertaneja.

Lá, por volta dos anos 50, Frei Damião já é um conselheiro consagrado pelos sertanejos, consagrado pelo povo porque a sua atividade pastoral é o de orientar as pessoas em temas caros para época, como o adultério, o casamento, a fidelidade, o divórcio, o namoro, o demônio, a pílula, o beijo, o inferno, o concubinato, entre outros conselhos. O fascínio que deriva de sua pessoa faz com que suas palavras sejam ouvidas e guardadas na memória e no coração dos devotos para serem seguidas. Quando o Frei Damião chegou ao Nordeste brasileiro, o catolicismo era tridentino, devocional, apologético. Era, portanto, uma prática religiosa baseada no forte temor de Deus e das caminhadas penitenciais. Por outro lado, a maioria dos bispos viviam em luxuosos palácios, das visitas pastorais marcadas pela santidade e autoridade episcopal, afastados do cotidiano do povo.

Os seus primeiros ensaios missionários foram proferidos, com Pe. Cícero Romão Batista vivo, com Lampião vivo, viajando a cavalo, num sertão nordestino sem estradas, sem energia elétrica, sem meios de comunicação. O frade começou a proclamar o Reino de Deus aos sertanejos, usando simbolicamente os ramos verdes, como fez Cristo em sua entrada triunfal em Jerusalém, fazendo procissões de velas acesas para clarear os caminhos escuros do semi árido nordestino.

Foram mais de meio século de missões utilizando a mesma pedagogia missionária. Aconselhando os devotos com os mesmos apelos. Os anos se passaram, Lampião desapareceu e com ele se foi a força do movimento do cangaço. Padre Cícero também que falecera. No decorrer de suas primeiras missões pelo Nordeste, Frei Damião se deparou com o clima profundamente marcado pela autoridade do Vigário de cada Paróquia, possuindo o poder de ligar e desligar, fazer e desfazer. Era o tempo das excomunhões, das indulgências, dos escapulários, das irmandades, das primeiras sextas-feiras, das devoções, das velas acesas para as almas nas segundas-feiras, das noites de maio, das Semanas Santas rigorosas com jejum, abstinência e mortificações.

O exclusivismo católico se fazia presente. O axioma herdado do passado medieval renasce com força nos seus sermões: “Fora da Igreja não há salvação”. Contudo, fora da Igreja estavam a Maçonaria e os protestantes. Era um tempo em que o diabo existia, as tentações também. A santidade existia, embora, em campos distintos e bem demarcados. Quando chegava o período de carnaval, a recomendação do capuchinho era que os fiéis católicos se recolhessem em retiros, fazendo atos de reparação e desagravo. Foi-se o tempo.

O MISSIONÁRIO FREI DAMIÃO

Ser missionário é mergulhar na vida do povo”. (Dom Hélder Câmara)

O Frei Damião nunca foi um vigário de paróquia, daí que sempre esteve isento do peso administrativo de uma Paróquia. Nunca fez uma pastoral como se faz hoje. Era um frade caminhante, nômade, andante. O capuchinho tinha um modelo de missão pronta e quando havia uma mudança no roteiro da missão, ele ficava meio perdido. O seu esquema de pregação missionária era preparado e, inclusive, ele decorava os sermões. O missionário deixou sua marca pelo seu contato permanente com o povo. Desta forma o povo era tocado por uma influência de pregação e confissão particular. Talvez por isso a cultura nordestina seja marcada por uma capacidade de ouvir e de absorver os conselhos para a sua vivência. A experiência missionária de Frei Damião no Nordeste foi intensa e percorreu as estradas a pé, a cavalo ou mesmo de carro.

As tradicionais missões eram realizadas num período de oito dias, quinze dias a um mês, embora, havia missões de dois a três dias, dependendo da necessidade da comunidade local. Era uma pessoa extremamente carinhosa e fazia parte de uma “dinastia de missionários capuchinhos” que marcou, intensamente, a região do Nordeste, desde 1612, com a chegada dos pioneiros, descendentes da França: Frei Claude d' Abbeville e Frei Ivo d' Evreux. Fica evidenciado na história que os capuchinhos tiveram grande influência sobre a religiosidade do povo do Nordeste brasileiro porque foram os grandes arautos de uma forma de missões ambulantes que teve ressonância desde os séculos XVII, XVIII, XIX e XX.

De toda missão que Frei Damião participava atraía muita gente de todos os recantos. A missão tinha um aspecto de festa na cidade, momento em que se vestia uma roupa nova e se arranjava um amigo ou mesmo um namorado. O pequeno comércio era revitalizado. Os vendedores de comida e de relíquias de santos lucravam com as missões. Comumente, o frade passava o dia todo atendendo confissões. Às vezes eram os homens, ora eram as mulheres, porém, dando sempre prioridade aos mais velhos e aos que chegavam primeiro.

Frei Damião como um exímio frade menor da ordem dos capuchinhos trouxe da Itália para o Brasil, especificamente para a cultura nordestina, um método de fazer missão, baseado na teologia e na pastoral do concílio de Trento, que fez um enorme sucesso na cultura sertaneja, devido ao seu enfoque sobre os pecados da carne.

O ponto alto das missões era a conversão dos fiéis à vida sacramental: casamentos religiosos, atendimento de confissões e distribuições de comunhões constituíam a ação pastoral do missionário nos meios populares. O sucesso das missões se media pelo número de confissões e comunhões, bem como pelos casamentos regularizados. Havia conversões ao catolicismo, através das pregações. Os sermões sensibilizavam o povo. Cabendo, também, uma ênfase apologética, mediante a condenação das ações dos espíritas e dos protestantes.

As missões populares pregadas pelo Frei Damião eram consideradas como um dos momentos fortes da ação pastoral. Os objetivos eram o afervoramento religioso, ocasião de conversão e regularização de vida, reconciliação de ódios, afastamento dos abusos e superstições e volta aos Dez Sacramentos. A grande temática das missões era os sermões, que duravam mais ou menos, quarenta minutos, dependendo da ocasião. O frade acordava às quatro horas da manhã. Usava uma campainha na mão, cantava e convidava o povo para a Igreja. O ato inicial das missões era sempre repetido com as tradicionais procissões da penitência pelas ruas do lugar.

Certamente que Frei Damião foi um desses gigantes missionários, capuchinho cuja memória continua presente na cultura sertaneja do povo nordestino, profundamente marcado pelo sofrimento. Desde que aportou ao Brasil nos idos de 1931, em Pernambuco, Frei Damião trabalhou como missionário incansavelmente pela conversão e pela salvação das pessoas. A ação missionária do frade é marcada, em especial, pelo dom da escuta e pela dedicação total ao povo, bem como pelos seus bons conselhos dados aos peregrinos que ouviam, na maioria das vezes, sem compreender nenhuma palavra dita pelo missionário, talvez seja por isso que todos os escutavam piedosamente.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CUNHA, Euclides. Os Sertões. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1967.

MARANGON, Mário. Frei Damião: Diversidade e identidades culturais. Recife, 2006, (Dissertação de Mestrado da Universidade Federal de Pernambuco)

MOURA, Abdalaziz. Frei Damião e os impasses da religião popular. Petrópolis: Vozes, 1978.

OLIVEIRA, Gidson. Frei Damião, O Santo das Missões. São Paulo: FTD, 1997.

OLIVEIRA, Pedro Ribeiro. Religião e dominação de classe: gênese, estrutura e função do catolicismo romanizado no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1985.

1Papa conhecido por promulgar os dogmas da Imaculada Conceição de Maria, da infabilidade papal e a centralização do poder burocrático na Cúria Romana – conhecida como romanização da Igreja.

2O Concílio teve duas partes fundamentais: uma parte foi dogmática e a outra foi a reforma moral.

3O beato Ibiapina era cearense e fazia missões populares pelo interior do Nordeste, pregando, curando, fundando confrarias para cuidar de orfanatos e escolas, estimulando o povo a construir açudes e estradas, enfim, exercendo uma atividade religiosa e social junto à população do sertão tendo granjeado muita fama. (Cf.: Pedro Assis Ribeiro de Oliveira. Religião e Dominação de Classe: gênese, estrutura e função do catolicismo romanizado no Brasil. Petrópolis, Vozes: 1985, p. 242.).

4Dedicou-se a realizar missões pelo sertão nordestino. Suas pregações eram inspiradas nas “Missões Abreviadas” e nas “Horas marianas”.

5O movimento religioso que se forma em torno do Pe. Cícero é marcado pela ambigüidade do papel religioso de sua figura central. Formado no seminário de Fortaleza segundo o espírito rigorista e reformador dos Padres Lazaristas e de D. Luiz Antônio dos Santos, o Pe. Cícero é dado a revelações místicas. Tendo estabelecido em Juazeiro – na época, um pequeno arraial – Pe. Cícero adota sob vários aspectos e exemplo do Pe. Ibiapina para seu trabalho pastoral junto aos camponeses. (Cf.: OLIVEIRA, 1985, p. 248-249.).

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