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Ambiguidade: para além do texto verbal

Por: Diógenes Afonso de Oliveira

O linguista Mattoso Câmara  definiu a ambiguidade como sendo a "circunstância de uma comunicação linguística se prestar a mais de uma interpretação" [1]. Diz, ainda, Mattoso Câmara que esse fenômeno é consequência da homonímia, polissemia e deficiência dos padrões sintáticos. A ambiguidade  seria, de um modo mais amplo possível, a construção  de mensagens em que se verifica dupla possibilidade interpretativa decorrente de vários fatores. Aqui, está-se diante da ambiguidade como problema de construção cujo "ruído" se faz perceber na relação entre interlocutores numa dada situação comunicativa: alguém pretende dizer ou escrever algo e, de repente, dois sentidos  se apresentam ao interlocutor, comprometendo a clareza daquilo que se desejou expressar. Exemplificando:

A ambiguidade é um problema de construção na produção da mensagem. Ela se dá a partir de vários fatores. [O pronome "Ela" pode ter os seguintes referentes: "ambiguidade", "construção", "produção", "produção da mensagem" e "mensagem". Qualquer que seja o referente escolhido, teremos dois vieses interpretativos.]

Parece-nos que o autor desejou informar que a "ambiguidade [...] se dá a partir de vários fatores", todavia o pronome "Ela" - que introduz o segundo período - poderia estar se referindo ao segmento "produção da mensagem", por exemplo. E o que teríamos?  Um deslocamento temático, pois o foco não seria mais a "ambiguidade", mas a "produção da mensagem" que se daria "a partir de diversos fatores". Vejamos outro exemplo:

O deputado falou para os seus colegas que sua posição, quanto ao relatório apresentado, não deveria ser revista. [O possessivo "sua" indica que a "posição, quanto ao relatório apresentado" tanto pode ser do deputado, quanto dos "colegas" do deputado]

Mas nem tudo em relação à ambiguidade é problema de construção que venha impedir a apreensão do exato sentido do que se quis dizer. Basta observar, em determinados textos publicitários e de propaganda política, por exemplo, o uso deliberado e intencional da ambiguidade como recurso expressivo. Exemplificando:

"Moreno pede Socorro!"

Com esse slogan, uma candidata à câmara de vereadores da cidade de Moreno [região metropolitana de Recife, Pernambuco] tentou conquistar os votos dos cidadãos apelando para a ambiguidade como um recurso para se fazer ouvir. Se há um pedido de "socorro", é porque problemas vários deviam estar ocorrendo na cidade, como má administração dos recursos públicos, falta de melhoria na estrutura sanitária, descaso com a saúde pública, com a segurança, com habitação etc. Diante de tudo isso, só uma candidata teria como atender ao "apelo" da cidade e sanar os problemas ali existentes. Sabe quem? Socorro. Sim, Socorro era o sobrenome da candidata.

O que se leu acima foi uma exposição elementar sobre a ambiguidade [quer como problema de construção, quer como recurso expressivo] no plano linguístico, isto é, num dado ato comunicativo em que a linguagem verbal [oral ou escrita] se faz presente.

Mas será que ambiguidade se instala apenas a partir do material linguístico [a palavra]? De bom grado, informo-lhes que não. As tais ilusões óticas ou ambíguas  [2] abaixo dão o tom do poder da ambiguidade enquanto possibilidades de leitura visual.

*Diógenes Afonso

Graduado em Letras

Especialista em Linguagens da OjE [Olimpíadas de Jogos Digitais e Educação]

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