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Nem dominantes, nem dominados... apenas homens livres: A representação da classe intermediária na obra “Memórias de um Sargento de Milícias” de Manuel Antônio de Almeida

Uma análise sobre a classe intermediária do livro "Memórias de um Sargento de Milícias".

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Esse artigo visa compreender a obra Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida sob a ótica da classe social denominada intermediária. De acordo com a posição social das personagens da referida obra, far-se-á um processo de correlação com os tipos sociais que não eram dirigentes, nem tampouco escravos, mas que flutuavam entre esses dois pólos tão contrastantes. Dessa forma, será possível entender a função que esses tipos ocupavam na sociedade brasileira do inicio do século XIX.

Para cumprir com o objetivo acima referido, torna-se preciso salientar a vinculação entre literatura e sociedade considerando que a leitura do texto literário possibilita uma maior compreensão das relações sociais e das estruturas que as condicionam mediante o contato com a literatura, os indivíduos se posicionam criticamente em relação aos processos e contextos nos quais estão inseridos.

Enfatizando a literatura enquanto uma manifestação artística e cultural em referência ao social, Adorno (2003) diz que:

Por isso mesmo, o pensar sobre a obra de arte autorizado e comprometido a perguntar concretamente pelo teor social, a não se satisfazer com o vago sentimento de algo universal e abrangente. Esse tipo de determinação pelo pensamento não é uma reflexão externa e alheia à arte, mas antes uma exigência de qualquer configuração linguística. (p. 67)

Do pensamento de Adorno, desprendeu-se que os recursos simbólicos do discurso literário guardam em sua essência os conflitos e anseios mais ocultos de um povo, de uma determinada sociedade. “Obras de arte, entretanto, tem grandeza unicamente em deixarem falar aquilo que a ideologia esconde”. (ADORNO,2003, P.68). Ideologia de uma ordem que é permanentemente escancarada em Memórias de um Sargento de Milícias.

A escolha pelas Memórias deve-se ao fato de esta proporcionar elementos que auxiliam no entendimento da estrutura social da época. Assim, se demonstrará que a dita obra ao focalizar tipos oriundos das camadas médias baixa, foge aos padrões românticos vigentes, cuja inspiração estava nos salões aristocráticos e nos ambientes sofisticados.

A obra acima mencionada foi inicialmente publicada sob a forma de folhetins anônimos assinados com o pseudônimo de “um brasileiro”, no Correio Mercantil, onde o autor trabalhou como jornalista de 1852 a 1853. “Pelo fato de ser um principiante sem compromissos com a literatura estabelecida, além de resguardado pelo anonimato, Manuel Antônio ficou à vontade e aberto para as inspirações de ritmo popular” (CANDIDO.1953, P.4).

O tempo da obra é bastante circunscrito, o que possibilita fazer alusões pertinentes ao contexto representado: “Era no tempo do rei.” O espaço urbano do Rio de Janeiro do início do século XIX constitui o palco das ações no qual o enredo se desenvolve.

No bojo das discussões aqui desenvolvidas, cabe destacar que no início do século XIX o Brasil, mas precisamente a capital Rio de Janeiro, vivia o glamour da vinda da corte portuguesa, a nobreza trazia consigo o sentimento de europeização à cidade. Tal fato impulsionou a construção de novas ruas e prédios para abrigar uma população em constante crescimento. A paisagem natural também encantava os viajantes que por essas terras desenbarcavam.

De fato houve mudanças significativas, sobretudo na arquitetura da cidade que ganhava ares de requinte, e uma transformação relevante nas atividades comerciais favorecendo a ascensão de uma burguesia emergente. Além disso, as estruturas econômicas e sociais sofreram alterações vertiginosas. De acordo com Sodré (1998)

Na transferência da corte portuguesa houve mais do que uma mutação política, uma subversão econômica com uma série de fatos consequentes. O advento de numerosas famílias, que traziam bens assim como da família real, com arcas abarrotadas, produziu um impulso apreciável da riqueza pública, colocando-a em paralelo com a riqueza particular. (p. 24).

Nessa cidade que passava por modificações tão visíveis, o autor Manuel Antônio de Almeida desenvolveu sua obra Memórias de um Sargento de Milícias. Para Moisés (2001). “Os tipos e situações das memórias foram extraídos da realidade do Rio de Janeiro no tempo do rei entre 1808 e 1821.” (p. 500). Contudo, na visão de Antônio Cândido (1993) a dinâmica do livro dá margem a uma discussão profunda baseada na intuição. Nesse sentido, a realidade colocada na referida obra pode não se constituir em uma descrição fiel do Rio de Janeiro. “Sendo assim, é provável que a impressão da realidade comunicada no livro não venha essencialmente dos informes, aliás relativamente limitados, sobre a sociedade carioca do tempo do rei velho.” (p. 5). De qualquer modo, vale acrescentar que a relação ficção / realidade ocorre tendo em vista os tipos retratados na obra e a estrutura societária da época representada.

Um aspecto que merece ser focalizado diz respeito à percepção de Cândido (1993) ao tratar das memórias, segundo esse autor, há um princípio geral que determina a dinâmica do livro. O qual denomina de ordem e desordem, tal princípio constitui uma dialética que tenta fundir duas percepções acerca da obra. Uma delas refere-se à necessidade de as Memórias serem uma descrição de costumes, o que estaria relacionado com uma tentativa de aproximar a referida obra à corrente nacionalista. Uma outra designa o caráter picaresco às memórias, e desse modo, sua origem encontra-se numa tradição européia. A visão de Cândido está no sentido de não reduzir a obra a nenhuma dessas correntes, todavia, compreender que há descrição de costumes e algumas marcas da novela picaresca, mas o livro não se resume a isso.

Em síntese, no princípio da ordem e da desordem alguns personagens, em um primeiro momento estão no hemisfério da ordem, o mestre de cerimônia e Vidigal. Com o transcorrer da narrativa acabam por transgredir para o hemisfério da desordem. O primeiro foi flagrado numa situação constrangedora com a cigana e o segundo por ter promovido Leonardo a sargento de milícias graças à intervenção de Maria Regalada, mulher de vida fácil com quem Vidigal teria se envolvido. Dessa forma, as personagens não ocupam uma posição delimitada dentro da história, o que corresponde à realidade histórica, assinalando a importância da obra em questão para o panorama literário brasileiro. Coutinho (2004) comenta: “(...) E as Memórias de um Sargento de Milícias, analisadas hoje em nossas letras como algo definitivo, senão como obra-prima, pelo menos como obra-viva, não envelhecida pelo tempo.” (p. 349)

Do que já foi dito até o momento, depreende-se que os personagens que transitam entre os pólos anteriormente destacados pertencem à classe social dos intermediários, esses não possuem uma intuição formada do que seja ordem uma vez que a própria ordem não foi construída. “(...) setor capital da sociedade brasileira: o dos homens livres que, não sendo escravos, nem senhores, viviam num espaço social intermediário e anônimo, em que não era possível prescindir da ordem nem viver dentro dela.” (SCHWARZ 1987 p. 3).

Conclui-se, a partir daí que a supressão das camadas dos dominantes e dos dominados denota o caráter de não dicotomizar a sociedade, assim as Memórias de um Sargento de Milícias pode ser considerada, uma das únicas obras do século XIX que não apresenta uma visão de classe dominante. Conforme Kothe (2000):” É um engano ver nossa novela apenas uma defesa dos interesses das camadas populares contra a intransigência das classes dominates: isso é reduzir a dialética a uma simples reversão de contrários antinômicos.” (p. 417).

Assim como, jamais faz qualquer tipo de alusão à ordem escravocrata no sentido de se posicionar criticamente ao regime, de sinalizar para uma postura planfetária ou talvez de manutenção da ordem vigente. Há passagem a seguir verifica-se essa característica presente em Memórias. “Era um sábado de tarde; em casa de D. Maria havia um lufa-lufa imenso; andavam as crias e mais escrava de dentro pra fora; espanava-se a sala; arrumavam-se as cadeiras; corria-se, gritava-se.” (ALMEIDA, 1999 p.151).

Voltando as atenções para o protagonista da história, faz-se preciso reiterar o fato de Leonardo representar o perfil do malandro, aquele que consegue se dar bem apesar dos percalços e infortúnios, porém o mais intrigante diz respeito a forma pela qual o narrador conduz a história, não há como fazer um juízo de valor em relação a esta obra, pois esta é permeada constantemente pelo riso escancarado provido de situações que no âmbito da vida real seriam no mínimo tratados de forma mais sisuda.

A obra retrata a sociedade que nem era escrava, mas tampouco era provida de riquezas, eram, portanto, homens livres e desprovidos de bens materiais que não foram integrados à produção mercantil e para se manterem trabalhavam em tarefas simples, como pequenos comerciantes, tropeiros, etc. Em sua maioria eram discriminados, pois muitos não trabalhavam, estavam inseridos na marginalidade ou eram tido como “vadios de rua.” A obra evidencia de forma bem humorada a questão da corrupção no serviço público, o tráfico de influências e as condições existentes para o exercício da prática do uso autoritário do poder em benefício próprio ou de outrem. A deficiência pública, a infidelidade aos valores morais permeia a obra, que dá a estas situações elementos que garantam a comicidade de referidos temas, e sempre de maneira satírica e alegórica.

Referências Bibliográficas

ADORNO,Theodor W. Notas de Literatura I, trad. de Jorge M.B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades, 2003.

ALMEIDA, Manuel Antônio. Memórias de um Sargento de Milícias.10 ed. Rio de Janeiro: Abril, 1999.

CANDIDO, Antonio. A Dialética da Malandragem. In: O Discurso e a Cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil – Era Romântica. Vol. 3. São Paulo: Global, 2004.

KOTHE, Flávio R. O cânone imperial. Brasília:Editora Universidade de Brasília, 2000.

MOISÉS, MASSAUD. História da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2001.

SCHWARZ, Roberto. Pressupostos, salvo engano, de dialética da malandragem. In: Que horas são? São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

SODRÉ, Nelson Werneck. Panorama do segundo império. 2 ed. Rio de Janeiro: Graphia, 1998.


Publicado por: FRANCISCO VIEIRA DA SILVA

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