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A Honra Gangster

Veja a história de Carlitos e Hatta, membros de gangues distintas no início da década de 1990.

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor . Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: https://www.brasilescola.com.

No inicio da década de 1990, o norte do Brasil foi tomado por uma onda de consumo dos produtos americanos. Era o período da redemocratização do país.

Nessa onda estavam incluídos o ritmo da dance-music e o estilo gangster da juventude viver. Estilo muito propagado pelo cinema de Hollywood. E pelos canais de televisão aberta.

Em quase todos os municípios se tinha uma danceteria ou Disco Club que tanto seduziam os jovens da época com seus pancadões.

Numa dessas baladas a turma do Carlitos se encontrou com a turma do Hatta, dois personagens completamente diferentes.

Carlitos era um sujeito de estatura mediana, louro e muito franzino, andava meio dançando.

Hatta era alto, negro e muito forte, devia pesar uns 90 kg. Ele trabalhava num açougue.

Carlitos era um malandro sedutor que tinha uma facilidade enorme para conseguir as meninas. Era cheio da mulherada.

Não era nem um galã mais fazia sucesso. E isso era mais um dos motivos que causava tanta fúria em seus inimigos.

Hatta por sua vez era um jovem trabalhador, o esteio da família.

Trabalhava de manhã e de tarde para sustentar seus pais idosos e seus irmãos mais novos.

Mas isso não importa, naquela época era moda ser ou ter uma gang.

Foi aí que Carlitos da Beta 7 se encontrou com o Hatta da Canibal num duelo histórico.

Carlitos e cinco colegas tomavam um esquenta na Praça da Igreja de São Benedito que ficava bem próximo da danceteria.

Era muito cedo para entrar.

Hatta e seus parceiros da Canibal sabiam que Carlitos com seu bando só chegariam mais tarde à danceteria.

Por isso, então, resolveram chegar mais cedo ao baile.

Era sete horas da noite (19:00h) quando Hatta chegou em frente ao clube com seus escudeiros.

Ele estava de pés e seus parceiros vieram na escolta de bikes adaptadas com guidão reto. Naquela época era raro o jovem pobre ter uma motocicleta (ainda é), por isso as bicicletas eram adaptadas que nem os carros são hoje em dia.

Nesse ínterim, Carlitos logo ficou sabendo que Hatta estava em seu território. Aquela região era dominada pela Beta 7, a gang de Carlitos.

Hatta era grande, forte e corajoso.

Carlitos estava impaciente!

Ele sabia que tinha que fazer alguma coisa para resolver aquela situação.

É uma questão de honra salvaguardar o território onde se vive.

Carlitos tinha que expulsar Hatta dali antes que o clube começasse a encher e a rua ficasse repleta de policiais.

Ainda era cedo.

Não tinha ninguém em frente ao clube, apenas o Hatta e seus escudeiros.

Carlitos esperava ansiosamente seu pessoal chegar em peso para escorraçar Hatta dali. Mas era cedo demais ainda.

E Hatta continuava lá de braços cruzados, observando o movimento.

Carlitos impaciente andava pra lá e pra cá.

O tempo era inimigo de Carlitos naquele momento.

Carlitos não se contendo mais foi lá encarar o Hatta.

Tomou uma dose grande de vodka no gargalo da garrafa.

Chamou seu pessoal e disse:

- Olha: eu vou lá arregar esse desgraçado agora!

Vou andar em direção a ele com a mão na faca. Vamos ver se ele é homem pra não fugir.

Hatta viu Carlitos se aproximar e levantou um pouquinho mais seu queixo.

Não tinha quase ninguém naquele momento em frente ao clube.

Era muito cedo ainda.

Hatta permanecia de braços cruzados.

Parecia muito confiante.

Carlitos indignado chegou bem perto de Hatta e o ofendeu com muitos palavrões.

Os dois estavam frente a frente, a menos de um metro de distância.

Hatta continuou de braços cruzados.

Carlitos levantou novamente a voz contra Hatta.

Nesse instante Hatta descruzou seus braços com muita rapidez.

Carlitos ficou imóvel vendo Hatta rodopiar duas vezes no ar uma corrente de elos enormes, a qual veio atingir em cheio sua mandíbula.

O tempo parou. Carlitos foi ao chão sangrando.

Todos correram! Menos Hatta que ainda deu um chute no estômago de Carlitos que jazia caído.

Hatta agiu com uma frieza imensa.

Ele olhou as poucas pessoas ao redor, virou de costas e sumiu, apoiando-se em pé na traseira da bike de um de seus escudeiros.

Os curiosos levaram Carlitos para o hospital.

Ele ficou quase dois meses sem poder falar e comer direito.

Carlitos conseguiu expulsar Hatta da festa.

Hatta também sabia o que tinha para fazer naquela noite.

Os dois conseguiram alcançar seus objetivos.

Agora Carlitos tem a língua presa, sequela da correntada que levou.

E Hatta não sei por onde anda.

*Geone Angioli é especialista em Literatura Brasileira e Professor do IFAM/PARINTINS.


Publicado por: GEONE ANGIOLI FERREIRA

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