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Zumbi, herói ou traidor?

Por: Marlene Bastos

O dia 20 de novembro, incluído no calendário escolar pela Lei 10.639 como o Dia Nacional da Consciência Negra, tem um significado especial para todos os brasileiros, negros ou brancos, que reverenciam Zumbi como o herói que lutou pela liberdade, pois foi neste dia, no ano de 1695, que morreu o último líder do Quilombo dos Palmares.

Conta a lenda que a princesa Aqualtune, filha do Rei do Congo, foi vendida como escrava para o Brasil. Guerrilheira nata, acostumada a ir para frente de batalhas para defender seu reino, conseguiu fugir para o Quilombo dos Palmares onde, ao lado de Ganga Zumba, trabalhou na organização do primeiro Estado Negro no Brasil. Uma de suas filhas deu-lhe um neto, que foi o grande Zumbi. Ele nasceu em vésperas de um ataque holandês, sobreviveu ao massacre, mas foi levado por um comandante e entregue a um padre, que o educou até os quinze anos. Forte e destemido, Zumbi decidiu voltar às suas origens e fugiu para viver no quilombo.

Ativo, valente e com conhecimentos militares, aos dezenove anos já era líder de um mocambo, ajudava na defesa e destacou-se como um grande guerreiro quando o quilombo foi atacado por soldados portugueses. Ganhou confiança de todos e foi nomeado comandante das armas por Ganga Zumba, na ocasião o líder supremo de Palmares.

Zumbi e sua coragem começavam a virar lenda.

Porém, quando alguns mocambos foram aos poucos sendo derrotados e muitos negros acabavam por se entregar, cansado de guerrilhas e na esperança de paz, Ganga Zumba aceita o tratado de paz proposto pelo governador de Pernambuco, que dizia que os negros e índios nascidos em Palmares se tornariam livres. Zumbi, e uma parte dos palmarianos, não concordaram com o acordo. Para ele não se tratava somente de viver livre, mas de libertar os ainda escravos.

Foi a prudência e a sabedoria de Ganga Zumba contra o destemor e o entusiasmo de Zumbi. Ganga Zumba viu frustrada a sua iniciativa. Foi morto por envenenamento e a suspeita caiu sobre o próprio Zumbi, que aos 25 anos de idade, tornou-se líder do quilombo dos Palmares, comandando a resistência contra as topas do governo, até o dia em que foi traído por um companheiro e entregue às tropas bandeirantes. Foi degolado em 20 de novembro de 1695.

Zumbi é considerado um dos grandes líderes de nossa história. Símbolo da resistência e luta contra a escravidão no Brasil Colonial.

A história, ou lenda, que conhecemos é muito bonita, apesar de alguns historiadores e pesquisadores levantarem a possibilidade de que Zumbi não tenha sido o verdadeiro herói de Palmares e sim Ganga-Zumba. Segundo eles, ninguém sabe quando nasceu o homem que ficou na história como o famoso Zumbi dos Palmares; também ninguém sabe, porque não há qualquer registro disso, que Zumbi fosse sobrinho de Ganga Zumba ou neto da princesa Aqualtune.

De acordo com os historiadores, no final da Guerra dos Palmares, um membro do exército luso-brasileiro escreveu que viu Zumbi jogar-se do alto de um penhasco para não ser aprisionado; outro afirma que o feriu e matou durante um dos combates; um terceiro garante que depois de morto cortou a sua cabeça e a levou para Recife.

Chegaram a cogitar a idéia de que haveria vários Zumbi em Palmares, ou que o termo Zumbi designasse, por exemplo, um capitão, comandante ou chefe de um quilombo.

Defensores de Ganga Zumba afirmam que ele foi estigmatizado depois de caído. Vencido em inúmeras batalhas, seus quilombos destruídos, seu povo destroçado e cansado de fugir de um lugar para outro, sem mais pouso nem sossego, Ganga Zumba aceitou as condições propostas no acordo para acabar com a guerra. Então foi marcado com o ferro da traição, depois de décadas de luta contínua contra um inimigo mais forte. Foi um grande chefe, um grande guerreiro e também um grande negociador.

Controvérsias à parte, é lamentável que para mistificar um herói seja necessário denegrir outro. Como não há luta sem bandeira, Zumbi transformou-se numa bandeira da luta contra a escravidão. Entretanto, restaram-me algumas perguntas: o que teria acontecido se os quilombolas tivessem conseguido a sua independência e hoje tivéssemos um país-quilombo encravado no nosso território? Como seriam as relações entre duas “raças brasileiras”, negros e brancos, separados? Haveria mais ou menos preconceito e discriminação?

Parece-me que quem inventou o conceito de “raças” procurava por justificativas para a dominação de determinados grupos humanos sobre outros.

O que precisamos, nas palavras do Dr. em genética humana Sérgio Pena, em seu livro “Humanidade Sem Raças?”, é de uma sociedade desracializada, que valorize e cultive a singularidade do indivíduo e na qual cada um tenha a liberdade de assumir, por escolha pessoal, uma pluralidade de identidades, em vez de um rótulo único, imposto pela coletividade.

Por Marlene Bastos. Publicado originalmente no Jornal Diário da Manhã.

http://www.dmdigital.com.br/index2.php?edicao=7686

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