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Espaço Geográfico: Uma Construção Socioeconômica ou Cultural?

Por: juarez cavalcante ferreira

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo promover algumas discussões a cerca dos conceitos de espaço geográfico, tema tão presente e complexo no cotidiano dos estudantes e geógrafos brasileiros. Ao mesmo tempo, analisar às diversas interpretações conceituais do espaço, a princípio, aquelas que passam, num contexto histórico, de uma visão simplificada da natureza, de análise apenas interpretativa, fortemente influenciada pelo positivismo de Comte até alcançar uma análise mais complexa, o espaço social, econômico ou cultural. A análise critica do espaço, como o resultado de ações temporais do homem dá suporte à outra ótica, sobretudo por que após os anos setenta do século passado, a interdependência econômica dos diversos países e a intensificação do fenômeno globalização, possibilitou a ampliação da concepção espacial. É por isso, que não nos cabe uma definição pronta do conceito em discussão. Não podemos negar a intensidade histórica do espaço, sobretudo a sua função dentro da geografia tradicional, nem tampouco deixar de analisar a complexidade de relações que criam e recriam o espaço na geografia critica e, também, fenomenológica, mais conhecida como geografia da percepção. É mais interessante, neste caso, uma apreciação das visões espaciais dos geógrafos críticos e, também, dos geógrafos culturalistas para construirmos um pensamento mais abrangente sobre a temática.

Palavras-chave: espaço geográfico; positivismo; globalização.

ABSTRACT

This work aims to promote some discussion about the concepts of geographic space, and this complex issue as applicable to students and Brazilian geographers. At the same time, analyze the various interpretations of the conceptual space, in principle, those who pass, in a historical context, a simplified view of nature, only interpretative analysis, strongly influenced by the positivism of Comte to achieve a more complex analysis, space social, economic or cultural. A critical analysis of space, as the result of man's temporal actions supports another viewpoint, especially that after the seventies of last century, the economic interdependence of the various countries and the intensification of the globalization phenomenon, made possible the extension of the design space. Therefore, we do not fit a ready definition of the concept under discussion. We can not deny the intensity of the historic space, especially its role within the traditional geography, nor fail to analyze the complexity of relationships that create and recreate the space in critical geography and also phenomenological, better known as the geography of perception. It's more interesting in this case, an assessment of the spatial views of critics and geographers, too, the cultural geographer to build a more comprehensive thinking about the issue. .

Keywords: geographic space; positivism; globalization .

1 INTRODUÇÃO

Espaço, segundo o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é a distância entre dois pontos ou linhas, ou ainda, a extensão que compreende o sistema solar, as galáxias, etc. Porém, no contexto em que é analisado pela ciência geográfica, o termo espaço, por si só, já dá margem à várias interpretações. Por conseguinte, tentaremos neste artigo, levantar questionamentos e promover reflexões sobre a temática espacial, tão bem posta por Milton Santos, visto que no contexto da ciência geográfica, definir espaço dando-lhe um conceito pronto é reduzir as suas possibilidades de interpretação e negar as suas temporalidades. Por outro lado, analisaremos as contribuições da geografia cultural para estabelecermos uma ponte entre as visões culturais do espaço e suas reflexões críticas. Contudo, não pretendemos contestar as teorias ou óticas dos geógrafos críticos ou culturalistas, mas promover novas discussões e trazer contribuições para esse debate que se mostra presente na geografia moderna.

2. DISCUSSÕES A CERCA DA TEMÁTICA ESPACIAL

As sociedades, ao longo do tempo, passaram por muitas mudanças, sobretudo nas formas de organização espacial. Quando o ser humano deixou de se nômade para se tornar sedentário, as primeiras terras ocupadas foram às margens de rios. Nestes locais, houve os primeiros sinais de modificação das estruturas naturais, ou seja, as primeiras tentativas de adaptar à natureza aos interesses humanos.

Os elementos naturais em conjunto, a natureza, começou a sofrer intervenções humanas. No entanto, o ser humano viveu em “harmonia” com o meio ecológico até meados do século XV, quando as relações comerciais promovidas por uma Divisão Internacional do Trabalho exigiam um saque maior de recursos naturais; produzia-se não mais para subsistência, o que estava em jogo era a acumulação de capitais advindo do capitalismo comercial. Com isso, as estruturas espaciais sofriam intensas modificações e as cidades eram os exemplos mais genuínos das transformações naturais.

O espaço construído, neste instante, atendia aos interesses de uma nova classe social, totalmente adaptado às necessidades econômicas e sociais da época. É interessante lembrar que o espaço em sua essência é dinâmico e vive num processo contínuo de mudanças. Por isso, as paisagens, os reflexos superficiais do espaço, se mostram diferentes em cada época.

É como se o espaço fosse a essência das relações sociais e a paisagem a aparência dessas relações. Neste contexto, podemos definir de forma temporária o espaço como o resultado de ações sociais, econômicas e culturais, que determinam o nível de transformação da natureza. Desta forma, os estágios das modificações naturais e criação de estruturas sociais dependem do nível técnico do qual dispõe o grupo social.

É muitas vezes a técnica o fator chave que determina o grau de mudanças para criação ou recriação do espaço. Pode-se até estabelecer uma análise comparativa entre os grupos indígenas que habitavam as terras da América nos séculos XV e XVI com os europeus colonizadores. Os primeiros não detinham o controle de técnicas que permitissem grandes mudanças nas estruturas naturais ou, por outro lado, suas relações com o habitat natural eram mais culturais do que econômicas. As possibilidades de modificar a natureza não eram nenhum atrativo para esses grupos sociais, totalmente dependentes do meio ambiente.

Talvez eles vivessem intensamente o Possibilismo de Paul Vidal de La Blach, ou seja, interviessem apenas nos elementos essenciais que permitira a construção dos gêneros de vida. Noutro sentido, os europeus, detentores de técnicas modernas para aquele período, já haviam transformado de forma intensa os seus ambientes. As metrópoles européias eram, sem dúvida, os maiores símbolos da influência e poder de transformação do capitalismo. Independente do tipo de relação do homem com o meio, do nível tecnológico que dispõe os mais diversos grupos sociais, as ações humanas sempre se revelam no espaço. Muitas vezes, essas ações são de ordem essencialmente cultural. Quando analisamos a forma de cultivo do sistema de roça no Brasil, logo percebemos que de maneira inconsciente os pequenos agricultores praticam a queimada para fortalecer o solo. Degradam em dois ou três anos o solo porque aprenderam com os mais antigos, pais, avós, etc. que essa técnica aumenta a produção. Essa herança que degrada o solo rural além de ter um objetivo econômico, revela a cultura que se propaga de geração em geração. Podemos perceber claramente, agora numa ótica cultural, que estes subespaços são construções culturais.

Na geografia moderna, os movimentos, fluxos como trata Milton Santos (2009),

transformam o espaço geográfico num todo, quase indivisível para o homem. Este, por sua vez, faz parte de uma sociedade integrada, global. No entanto, uma parcela considerável da sociedade está margeada dessa globalização. O espaço torna-se, então, uma mercadoria exclusiva para quem detém o capital. Desta forma, a cultura tem um peso fundamental para a definição das identidades nacionais. Apesar de habitarmos um espaço global, suas diferenciações se mostram por meio da relação do homem com o seu meio. Por isso, e não apenas por meio de elementos naturais é que temos um espaço integrado, globalizado, mas heterogêneo.

Talvez por meio de uma relação mais verdadeira com o meio, neste caso cultural, é que temos sociedades com níveis de desenvolvimento diferentes. Podemos até justificar exemplificando os povos de algumas regiões da Ásia (Tibet.) onde não são os elementos naturais que impedem uma ocidentalização do país. É a cultura o fator primordial da pouca transformação espacial. Contudo, vale ressaltar que cultura por si só não determina grandes transformações espaciais, há sempre um objetivo econômico, de produção ou acumulação de capitais que integradas às formas de vida das sociedades moldam o seu espaço, constroem momentaneamente novos espaços e os reconstroem.

Correia (2009) em seu texto “Espaço:

um conceito chave da geografia propõe uma análise diferenciada do espaço. Para ele, o espaço tem funções sociais, econômicas e também culturais. Cada fase ou período da geografia é marcado por uma concepção espacial diferente. Na geografia tradicional, aquela que surge na Europa por volta de 1870 o conceito de espaço está mais ligado a descrição. Interessa mais, neste período, conhecer todos os componentes da Terra e descrevê-los. Por outro lado, nesta mesma corrente geográfica, usava-se o espaço natural como fator determinante da exploração do homem pelo homem. Ideologias dominantes estavam associadas aos elementos naturais para determinar a subordinação social. Neste contexto, o espaço era apenas um objeto que reproduzia a desigualdade.

Milton Santos (2009) analisa o espaço como

construção humana que é capaz de interferir na própria forma de vida dos grupos que o constroem e o reconstroem. O espaço vivido é, sem dúvida, aquele onde as relações se mostraram mais intensas e que, no futuro, direcionam novas mudanças. O que fica; construções de gerações ultrapassadas, são as heranças, as lembranças de culturas antigas. Só em observar Mathu Pichu (cidade de pedra localizada no Peru) percebemos que sua arquitetura explica muito sobre a forma de vida e produção dos Incas.

Sobre este assunto, Santos (2009 p. 39) complementa:

“Só o estudo da história dos modos de produção e das formações sociais nos permitirá reconhecer o valor real de cada coisa no interior da totalidade”. Pensando mesmo nos modos de produção, ou seja, nas formas de organização social para produzir, podemos usá-las para entender as transformações espaciais. Sabe-se que na história humana, as sociedades se organizaram de diferentes maneiras para satisfazer as necessidades individuais e coletivas. No neolítico, inicio mesmo das transformações naturais, os grupos humanos não dominavam técnicas capazes de causar mudanças significativas no meio ecológico.

O comunismo primitivo era mais uma organização social de sobrevivência do que mesmo de produção acumulativa. No entanto, já na Europa, Ásia e África, no período histórico conhecido como escravismo, impérios artificiais se formavam graças a submissão forçada do homem. Mesmo com o surgimento dos impérios, as ferramentas rudimentares pouco interferiam na natureza, se comparada a sua extensão.

Mais de 8 000 anos se passaram para que o homem europeu, com uma visão acumulativa e exploratória desenvolvesse técnicas capazes de causar transformações irreversíveis na natureza. A divisão internacional do trabalho, estabelecida entre as metrópoles européias e suas colônias fortalecia o comércio europeu e criava novos hábitos, desta vez, totalmente urbanos, A ocidentalização do mundo, ou seja, a imitação do modo de vida europeu, marcado pelo consumo exacerbado interligou os diversos países deixando-os interdependentes. O termo primeira natureza, após a segunda revolução industrial, já não tem tanto foco.

Quase todos os lugares do mundo foram parcialmente mexidos. A busca de matérias primas para as indústrias que já se expandira para os chamados periféricos forçava a criação de novos espaços artificiais. Neste contexto, e não apenas num sentido histórico, percebe-se que a construção de uma segunda natureza, onde elementos artificiais e naturais se interligam, é mesmo resultado de relações produtivas e culturais dos homens. Não cabe, neste sentido, dizer que o espaço geográfico, no qual as pessoas vivem e produzem para consumir e, em alguns casos, trocar por moeda, tem apenas um sentido econômico, pois mesmo estabelecendo relações produtivas, os homens criam laços culturais que explicam o seu comportamento. Esses laços culturais se desenvolvem até mesmo nas relações destes homens com os seus meios, nas suas particularidades, maneiras de trabalhar a terra, de colher, de esperar o período natural propício para realizar a plantação, a colheita e etc. Toda e qualquer forma de vida, de trabalho, de relação afetiva, de produção, de venda e de consumo tem um significado cultural. Mas é bom saber que cultura, por si só, não alimenta o povo; é necessário produzir. Em outras palavras se faz necessário desenvolver economicamente a cultura e empregar valor de troca às produções para que haja satisfação social.

BIBLIOGRAFIA

CASTRO, Iná Elias; GOMES, Paulo Cesar da Costa e CORREA, Roberto Lobato; (orgs.) Geografia: Conceitos e temas. 12ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.

CARLOS, Ana Fani Alessandri; (org.) Novos Caminhos da Geografia. São Paulo: Contexto, 2001

________________________, O consumo do Espaço. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri; (org.) Novos Caminhos da Geografia. São Paulo: Contexto, 2001. P. 173-186.

CORREA, Roberto Lobato; Espaço: Um conceito Chave da Geografia. In:

CASTRO, Iná Elias; GOMES, Paulo Cesar da Costa; e CORREA, Roberto Lobato; (orgs.) Geografia: Conceitos e temas. 12ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009. P. 15-49.

INSTITUTO Antônio Houaiss. Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 2ª Ed. Rev. e Aum. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

MORAES, Antonio Carlos R. Ideologias geográficas: espaço, cultura e política no Brasil. 5ª Ed. São Paulo: Annablume, 2005.

SANTOS, Milton; Pensando o Espaço do Homem. 5ª Ed. São Paulo: Edusp, 2009.

SPOSITO, Maria Encarnação B. e WHITACKER, Artur Magon (orgs). Cidade e Campo: Relações e Contradições entre Urbano e Rural. 1ª Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

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