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A Física na Casa de Farinha e uma Visão Popular de Alguns Conceitos Físicos na Produção de Farinha

Por: francisco de almeida

RESUMO

Este artigo apresenta o resultado de uma investigação dos aspectos relacionados à Física envolvidos no manuseio dos equipamentos de uma casa de farinha localizada na zona rural do município de Mucambo.  A pesquisa foi realizada a partir de observações e análise dos equipamentos e de uma entrevista semi-estrurada, organizada numa linguagem coerente com a usada na comunidade.  A entrevista aconteceu de forma espontânea com o proprietário da casa de farinha, visando a coleta de dados para análises e estudos. O registro das informações foi feito através da gravação de áudio para aproveitamento integral do conteúdo, que após serem analisados os resultados, comprovaram que a vivencia diária é rica em conhecimentos culturais, podendo ser aproveitada de maneira contextualizada com o ensino de Física das escolas, através de esquematizações e situações problemas desafiadoras oriundas de elementos conhecidos e populares, como são os elementos envolvidos na produção de farinha.

Palavras-chave: Física. Currículo. Cotidiano. Casa de Farinha.

1. INTRODUÇÃO

A ciência tem um papel fundamental na busca incessante por respostas aos acontecimentos do cotidiano e é responsável pelo desenvolvimento social e tecnológico de uma nação. Ao ser desenvolvido em consonância com a educação gera uma qualidade educacional promissora ao crescimento do país. O ramo da ciência que tem como objetivo de investigar os fenômenos da natureza e esclarecer, com bases neles, os acontecimentos concretos do dia a dia é a Física. Além dessas funções básicas, através dela se conseguem avanços tecnológicos necessários ao progresso do mundo, desde a antiguidade até os dias atuais.

Por outro lado, o indivíduo é, ao mesmo tempo, produto e sujeito de um conjunto de hábitos, crenças e atitudes, guardado por fronteiras móveis, abertas, indefinidas, cujas influências deixam marcas, em seu universo cultural, oriundas do senso comum.  É impossível separar o indivíduo de sua cultura, já que está envolto na correnteza da história local e global. Paulo Freire é oportuno quando diz: “Por que não estabelecer uma “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos?”  (FREIRE, 1996, p. 30).

Neste aspecto, a própria escola muitas vezes é deficiente ao deixar transparecer que os conhecimentos repassados não vão ter aplicabilidade no cotidiano do aluno, ou que estes saberes estão muito distantes da realidade de vida deles, ou que os conhecimentos prévios e populares não podem ser aproveitados no contexto de sala de aula. Com essa realidade, os alunos não sentem interesse pelo que está sendo ensinado e não se engajam no processo educativo, por desenvolver uma visão que estes conhecimentos não servem pro seu mundo cotidiano.

Essa desconexão é presencial no ensino de Física atual, gerando uma falta de relação entre teoria e prática. A Física passa então a ser tida como uma ciência desconecta da realidade do aluno e isso conduz o mesmo a pensar que ela não tem nenhuma relevância com os fenômenos vividos por ele.  Devido a este e outros fatores muitos alunos não compreendem ou não dão importância a essa ciência, e assim, a escola não consegue despertar a curiosidade do aluno em aprofundar seus conhecimentos nessa área, já que, segundo eles, esta se apresenta de maneira inválida.

Este trabalho tem como objetivo investigar os conhecimentos populares envolvidos com o manuseio dos equipamentos da casa de farinha, confrontar o saber popular de conceitos envolvidos na produção de farinha com o saber científico, diferenciando o conhecimento intelectual e cultural e mostrar a importância desse elo no ensino-aprendizagem de Física.

Ao traçar os objetivos desse estudo, visou-se uma investigação dos saberes comuns envolvidos nos equipamentos da casa de farinha e no processo de produção da mesma. Conhecendo e enaltecendo o conhecimento popular, é possível usá-lo de forma construtiva no ensino de Física, através da elaboração de esquemas, situações desafiadoras e curiosas, provindas do próprio cotidiano do aluno e contextualizadas com a teoria conhecida no saber escolar.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

O CONHECIMENTO POPULAR E O ENSINO FORMAL

O conhecimento é o ato ou a atividade de conhecer, realizado por meio da razão e/ou da experiência. Conhecimento popular é o adquirido no dia a dia. Essa forma de conhecimento é adquirida também por experiências vividas ou presenciadas diante de fatos, obtendo conclusões. É uma forma de conhecimento superficial, sensitiva, subjetiva, acrítica e assistemática e que não precisa ter comprovação científica, e esta também não tem importância. O fato é que se sabe e pronto, não precisa ter um motivo de ser. "É o saber que preenche a nossa vida diária e que se possui sem o haver procurado ou estudado, sem a aplicação de um método e sem se haver refletido sobre algo". (BABINI, 1957, p. 21).

O conhecimento científico é importante porque precisa de fontes mais seguras que abordem os fatos e fenômenos da realidade de forma sistemática, aplicando métodos e realizando análise e síntese, sem a interferência das crenças do pesquisador.  Ruiz o descreve como um conhecimento que vai além do empírico, procurando conhecer, além do fenômeno, suas causas e leis (RUIZ, 2002).

A conexão do conhecimento empírico com o científico aproxima o aluno da realidade e amplia o universo de saberes mediante a comprovação do aprendizado na prática de sua própria vivencia social, já “que todo conhecimento mantém diálogo com outros conhecimentos” (BRASIL, 2002, p. 88). É possível o diálogo entre os dois tipos de conhecimentos, o cotidiano e o escolar, apesar das especificidades contidas em cada um deles.  O aprender vai além do vivenciar e do conhecer, demanda dar significado, para que se possa pensar, questionar e construir o conhecimento, tornando-o seu, ou seja, produzindo sínteses provisórias.  Tornar-se humano e construir sua própria identidade requer conhecimento de outros saberes que vão além daqueles que já temos na nossa vida diária, e esta é uma das funções do processo de escolarização.

Vygotsky explica que os conhecimentos construídos no dia-a-dia, cotidianos ou informais, são diferentes daqueles elaborados na instituição escolar, uma vez que os primeiros são provenientes da prática social e sem nenhuma preocupação com a atividade intelectual, pois a aprendizagem da vida cotidiana traz seu significado referentes a si mesma, baseada no experimentalismo, no pragmatismo e na espontaneidade, ou seja, no sensível-concreto. Por outro lado, o conhecimento escolar ou formal, demanda que na relação professor-aluno haja uma orientação intencional e explícita de promover o processo ensino-aprendizagem de saberes que foram produzidos ao longo da história da humanidade e que na escola são sistematizados. A aquisição deste conhecimento necessita de estratégias específicas e cabe ao professor criá-las e utilizá-las ao lecionar, ou seja, precisa-se da intervenção do educador, por meio da mediação, para que o educando apreenda e aprenda este saber (VYGOTSKY, 1993).

Apesar da diferenciação de nomenclaturas e titulações é possível haver uma conexão entre os conhecimentos populares e científicos produzindo aprendizagens significativas no âmbito escolar. De acordo com Forquin, a educação e a cultura estão intimamente ligadas e “toda educação, e em particular toda educação do tipo escolar, supõe sempre, na verdade, uma seleção no interior da cultura e uma reelaboração dos conteúdos da cultura destinados a serem transmitidos às novas gerações” (FORQUIN, 1993, p. 14).

A conexão entre a Física e os a conhecimentos culturais aproxima os fenômenos teóricos estudados de suas aplicações no dia a dia do aluno. Partindo do seio cultural e direcionando o aluno para o ensino escolar da Física é viável uma melhor compreensão dos fenômenos físicos e das leis que regem o universo. Isso é concernente com o que trata os Parâmetros Curriculares Nacionais, ao destacar que:

O contexto que é mais próximo do aluno e mais facilmente explorável para dar significado aos conteúdos da aprendizagem é o da vida pessoal, cotidiano e convivência. O aluno vive num mundo de fatos regidos pelas leis naturais e está imerso num universo de relações sociais. Está exposto a informações cada vez mais acessíveis e rodeado por bens cada vez mais diversificados, produzidos com materiais sempre novos. Está exposto também a vários tipos de comunicação pessoal e de massa. O cotidiano e as relações estabelecidas com o ambiente físico e social devem permitir dar significado a qualquer conteúdo curricular, fazendo a ponte entre o que se aprende na escola e o que se faz,vive e observa no dia-a-dia (BRASIL, 1999, p. 94).

O planejamento das estratégias de ensino viabiliza a ascensão da aprendizagem dos alunos de forma significativa. Na elaboração de métodos de aplicação dos conteúdos deve-se pensar na realização de aulas inovadoras, diferentes, despertando a curiosidade dos alunos, favorecendo a aprendizagem dos mesmos. Segundo Petrucci e Bastion, a palavra estratégia pode ser usada como ações ligadas ao ensino de forma norteadora ao objetivo educacional que é a aprendizagem:

[...] a palavra estratégia possui estreita ligação com o ensino. Ensinar requer arte por parte do docente, que precisa envolver o aluno e fazer com que ele se encante com saber. O professor precisa promover a curiosidade, a segurança e a criatividade para que o principal objetivo educacional, aprendizagem do aluno, seja alcançado (PETRUCCI e BASTION, 2006, p. 263).

Os resultados desse processo de contextualização de saberes escolares com os populares enriqueceram o ambiente de ensino e o processo de apreensão dos conceitos envolvidos na disciplina de Física.  Para Duarte, considerar o cotidiano como ponto de partida revela outras possibilidades ao ato docente, e que, não necessariamente, afeta o conhecimento escolar, expresso nos currículos escolares como conteúdo disciplinar. Ao se trabalhar com o saber informal, é necessário desenvolver a criticidade, pois é o que irá demandar o trabalho com o saber formal, e assim eliminar espontaneísmos, pragmatismos e empirismos. A educação escolar apresenta um papel relevante na formação do indivíduo, é ela que efetiva o papel mediador entre a vida cotidiana e as esferas não cotidianas das práticas sociais do homem (DUARTE, 2007).

O COTIDIANO NO ENSINO DE FÍSICA

No ensino das ciências de modo geral, e da Física em particular, mais que em outras áreas, se torna evidente que os alunos convivem com acontecimentos sociais significativos estreitamente relacionados com a ciência, a tecnologia e com produtos tecnológicos. No entanto, os alunos recebem na escola um ensino de ciências que se mostra distante de seus debates atuais. Em muitos casos os alunos acabam por identificar uma ciência ativa, moderna, e que está presente no mundo real, todavia, distante e sem vínculos explícitos com uma Física que só existe na escola.

No atual cenário educacional, o ensino de Física está imerso na problemática da falta de ligação entre os conhecimentos ensinados e o universo de interesses dos alunos (ALVES e STACHAK, 2010; REIS, 2007).   Neste contexto, uma questão a ser debatida é o significado de ensinar ciências para a vida em um mundo de diversidade cultural cada vez mais globalizada.

O ensino de Física atual está trabalhando a disciplina como sendo uma parte separada do conjunto universo, como se os conhecimentos escolares não tivessem nenhum vínculo com a realidade do aluno, fugindo do que rege os parâmetros curriculares nacionais (PCNs) que orientam que há “um amplo conjunto de atividades [...] que podem contribuir para que o ensino de Física promova competências de caráter cultural e social, conferindo ao conhecimento cientifico suas dimensões mais humanas” (BRASIL, 2002, p. 85).

Parte do desinteresse do aluno é causado por não verem a aplicabilidade dos conceitos estudados no dia a dia. Outro fator marcante é a forma como são transmitidos os conteúdos, pois nem sempre os professores são capazes de instigar o aluno a aprofundar seus estudos nessa disciplina, uma ciência explicativa da realidade que os circunda.

3. METODOLOGIA

A casa de farinha objeto desse estudo está situada na comunidade de Poços Verdes, zona rural do município de Mucambo, tem aproximadamente 50 anos de construção e possui uma estrutura física e de equipamentos basicamente igual à de sua origem, com destaque para a confecção artesanal dos equipamentos, que preservam uma herança cultural da comunidade.  O proprietário e conservador da mesma é o senhor Eduardo Rodrigues de Carvalho, responsável direto pela maior parte das informações coletadas neste trabalho.

Com o objetivo de investigar os conhecimentos populares envolvidos no manuseio dos equipamentos da casa de farinha foram elaboradas perguntas que, compondo o corpo de uma entrevista semi-estruturada, ajudaram a coletar dados para análise e estudo. A entrevista primou por perguntas elaboradas numa linguagem coerente com a usada pelos moradores da comunidade e investigou tanto sobre a origem cultural quanto sobre o conhecimento funcional dos equipamentos da casa de farinha. A entrevista ocorreu de forma espontânea e flexível às fluições de pensamentos do momento.

No decorrer da entrevista, que teve duração de 40 minutos, o entrevistado foi relatando fatos relevantes, exemplificando e simulando o funcionamento de alguns instrumentos, como a roda, a prensa de fuso e a torragem de farinha no forno de trilho, enriquecendo as informações dadas.

O registro da entrevista foi feito através da gravação de áudio, visando o aproveitamento integral e legitimidade das informações e melhor rendimento no resultado nas discussões do projeto. Os principais equipamentos também foram fotografados.

Após a obtenção das informações e da audição da entrevista repetida vezes, as informações principais foram transcritas e organizadas em tópicos para melhor análise.

4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

ETAPAS DE FABRICAÇÃO DA FARINHA

A casa de farinha ou aviamento é o local onde acontece o processo de transformação da mandioca em farinha. É o espaço onde o homem exercita sua habilidade técnica, quotidianamente desenvolvida através dos anos de convívio-aprendiz com os mais velhos. Pode-se dividir em nove fases a fabricação da farinha, como ilustra o esquema  mostrado na Fig. 01.

Figura 01 – Esquema representativo das principais fases envolvidas na produção da farinha de mandioca.

Plantação: a melhor época para o plantio é o início do período mais chuvoso, geralmente no mês de janeiro.

Colheita: para um melhor rendimento e  qualidade da farinha, a mandioca deve ser colhida entre 1 ano e 4 meses e 1 ano e 8 meses após o plantio.

Transporte: o transporte  normalmente ainda é feito  através de animais, mas já se usam caminhões para esta tarefa.

Limpeza: feita em duas etapas, lavagem seguida de descascamento ou raspagem da mandioca, para a retirada das fibras da casca e de parte do veneno.

Serragem ou ralação: após a limpeza, as mandiocas são serrradas (raladas), formando uma massa embibida no líquido da mandioca (manipueira).

Prensagem: a massa, depois de ralada, é comprimida com o uso de uma prensa. O líquido extraído da massa (manipueira) é bastante tóxico.

Esfarelamento: após retirar a massa compactada da prensa, a mesma é esfarelada.

Peneiração: a peneiração separa os fragmentos menores dos maiores, homogenizando a gramatura da mesma, assim proporcionando melhor qualidade. Os fragmentos retidos pela peneira são chamados crueira.

Torragem: a massa, após passar pela peneiração, é colocada no forno para a retirada da umidade e neutralizar a toxidade, sendo mexida constantemente pelo forneiro (farinheiro). É esta etapa que transforma a massa em farinha. 

A mandioca fermenta com grande facilidade em temperatura ambiente, após a colheita, sendo usado a torragem ou a refrigeração para evitar a fermentação. O  início da fermentação ocorre em cerca de 48 horas, mas em condições de maior calor ou umidade este tempo pode ser reduzido e a mandioca escurece (início da fermentação). Para evitar a fermentação e o escurecimento da farinha a ser produzida, o processo todo deve ocorrer o mais rápido possível.

A mandioca  necessita de limpeza por dois motivos principais: para a diminuição dos agentes produtores de ácido cianídrico (HCN) e para a retirada de terra e de possíveis contaminações vinda do solo. Já a granulação da massa, a temperatura do forno, o tempo de secagem da massa no forno e a técnica de mexê-la são fatores que influenciam o tipo e qualidade da farinha produzida.

CONHECIMENTO CULTURAL E FUNCIONAL DOS EQUIPAMENTOS

Através do levantamento feito por meio da entrevista semi-estruturada foi possível perceber e compreender a atuação dos conhecimentos empíricos na vida de um povo, transmitidos de uma pessoa para a outra, bem como os avanços significativos no histórico estrutural da casa de farinha. As mudanças ocorridas na forma organizacional e funcional da casa de farinha mostram a variação de saberes de uma comunidade em prol da melhoria e da busca incessante por artifícios que tornem suas atividades diárias menos dificultosas.

O conhecimento dominado nesta área foi adquirido e passado de pai para filho e, com a convivência cotidiana dessas atividades farinheiras, foram transmitidas por herança cultural, como uma alternativa de fonte de renda familiar. Juntamente com esse conhecimento veio também o domínio da arte artesanal, visto que os equipamentos usados na casa de farinha eram fabricados por eles mesmos, na própria comunidade. A razão da conservação dos padrões antigos na produ&ccedi

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