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O paradigma racionalista da Ciência

Por: Saulo Maurício Silva Lobo

Falar de ciência hoje em dia e para muita gente falar daquela que é a verdadeira maneira de conhecer, única forma válida de conhecimento. Aqui vale esclarecer o que se entende por conhecimento. Nicola Abbagnano, em seu Dicionário de filosofia nos diz que conhecimento é “uma técnica para a verificação de um objeto qualquer, ou a disponibilidade ou posse de uma técnica semelhante”, técnica essa que nada mais é que “qualquer procedimento que possibilite a descrição, o cálculo e a previsão controlável de um objeto” (2003, p. 174).

Essa definição expressa bem o próprio ideal de ciência ainda amplamente em voga nos tempos atuais. Tudo não passa dos resquícios e conseqüências de tantas transformações pelas quais passou a sociedade e a humanidades nos últimos séculos. Sendo o conhecimento produção e possibilidade humanas, nada mais absolutamente normal que ele mesmo ter passado por várias transformações ao longo da história, seja no que toca ao seu método, seja no que tange aquilo sobre que se debruça – objeto – seja mesmo na compreensão que a comunidade científica e a população em geral têm a seu respeito.

Entretanto, para que se consiga compreender com maior clareza o que é o discurso científico – ou os discursos científicos – de hoje, vale voltar ao modelo de ciência que antecedeu e foi ao mesmo tempo contemporâneo ao empirismo legado às gerações posteriores. Na verdade, o paradigma racionalista nunca foi completamente extinto, tampouco se pode dizer tenha perdido valor. Ainda muitos autores trabalham com essa perspectiva, conforme veremos.

Sendo assim, este texto visa colocar em relevo os principais pontos tocantes a esse paradigma para que se perceba sua importância, como também suas limitações. Tenha-se sempre em vista, portanto, as próprias limitações do texto – espaciais e temporais –, seu caráter introdutório e o ditado popular: “todo ponto de vista é a vista de um ponto”.

1. O surgimento

Racionalismo, tomado apenas etimologicamente, é um termo um tanto vago. Nada mais seria que uma perspectiva cultural pela qual o homem chega a verdades absolutas apenas com o uso da faculdade da razão. Neste trabalho, no entanto, o termo será tomado conforme o define Hegel, como aquela corrente filosófica que vai de Descartes a Kant, passando por Leibniz e Spinoza. Assim, René Descartes é considerado o “pai do Racionalismo moderno”. Foi uma das correntes filosófico-científicas do homem da Idade Moderna.

Para esse movimento, o homem pode chegar pela razão, a verdades de valor absoluto. Seja a partir de fatos, os quais, ultrapassando a mera força dos sentidos, permitem ao homem, com a força da razão, abstrair e atingir condições transcendentais do mundo; seja a partir da pura intuição, que prescinde dos fatos.

O que o Racionalismo buscava, na verdade, era conhecer a essência. Por isso, não se prendia aos fatos e ao mundo sensível, mas afirmava que a razão humana poderia transcender e chegar ao conhecimento de realidades supra-sensíveis, pela força da abstração e das concatenações racionais.

Essa corrente de aproximava, assim, da metafísica de Platão. Não de pode, entretanto, incorrer no erro de achar que o Racionalismo é apenas uma corrente teórica. Ao contrário, terá conseqüências também na ética e mesmo na política.

Para que se compreenda melhor seu surgimento, é importante conhecer seu contexto, pós-medieval e ainda pré-Revolução Francesa e Industrial.

A Idade Média européia, centro a partir do qual de estuda a História do Ocidente, foi dominada pela Igreja Católica Apostólica Romana. O Cristianismo era Cristandade. Igreja e Estado unidos num casamento que parecia indissolúvel. Com e processo de feudalização originado ainda no final da Antigüidade e princípio do período Medieval essa situação se agravou. Toda a conjuntura política, econômica, social, cultural e religiosa era profundamente marcada pela influência da Igreja. Portanto, não é de se admirar que a visão de mundo das pessoas fosse aquela pregada dos púlpitos das igrejas, catedrais e basílicas.

No campo do conhecimento, a segunda etapa da Idade Média se caracteriza pela Escolástica, a filosofia cristã da Idade Média, em sentido estrito, mais especificamente a Alta Idade Média (séculos IX a XIV), em distinção à Patrística, da Baixa Idade Média. O termo “Escolástica” deriva claramente de “escola”. No latim, scholasticus designava justamente o professor das artes liberais, depois o de filosofia ou teologia, seja primeiramente nas escolas dos conventos, mosteiros e catedrais, seja posteriormente nas Universidades.

No período da Escolástica, as formas de ensino eram basicamente duas, que poderíamos claramente comparar àquilo que são hoje nossas aulas expositivas e seminários, respectivamente:

• A lectio, ou seja, o comentário de um texto;

• A disputatio, que consistia na discussão de determinado problema a partir do exame dos argumentos favoráveis e contrários.

Por isso, a atividade literária nesse período, além de muito importante, assumiu principalmente a forma de comentários ou de coletâneas de questões.
A tarefa intelectual fundamental dos pensadores escolásticos era a defesa da fé com argumentos racionais, tendo em vista que, sendo razão e fé dons provenientes do mesmo Deus, era inconcebível que as duas fossem inimigas ou contrárias, senão que devesse colaborar para a realização do próprio homem.

Assim, não podemos considerar a Escolástica como propriamente autônoma como a filosofia grega. Sendo sua finalidade essa acima estabelecida, o que se fazia nesse período era apenas usar uma filosofia determinada (sobretudo o neoplatonismo ou o aristotelismo) para a explicitação dos dogmas da religião. Vigoraria então o argumento da autoridade para que se fosse aceito como válido um argumento.

Auctoritas é a decisão de um concílio, uma máxima bíblica, a sententia de um Padre da Igreja ou mesmo de um grande filósofo pagão, árabe ou judaico. O recurso à autoridade é a manifestação típica do caráter comum e supra-individual da investigação escolástica, em que cada pensador quer sentir-se apoiado pela responsabilidade coletiva da tradição eclesiástica. (ABBAGNANO. 2003, p 344. Grifo do autor.).

Ao longo de toda a história do conhecimento humano e da Humanidade em si, vê-se que o homem sempre tentou compreender o mundo que o cercava. Desde o mito até a atual era da técnica, esse é um problema longe de ser esgotado.

Das cosmogonias e cosmologias gregas chegou-se ao Cristianismo Ocidental medieval. Nesses 10 séculos sob a hegemonia da Igreja Católica, a teologia estava em voga e tinha a seu serviço a filosofia. A concepção de mundo do homem medieval era teocêntrica e profundamente marcada pela religiosidade, ainda que nem sempre fosse aquela oficial ditada pela Santa Madre Igreja.

Entretanto, as coisas começaram a mudar e já entre os séculos XIV e XV se percebia que o feudalismo entrava em crise, por razões que não nos cabe analisar aqui, devido à brevidade deste trabalho. O fato é que, a Idade Média Ocidental compreende aquele período de mais ou menos 10 séculos, entre o fim da queda de Roma e a queda de Constantinopla; predominava a Igreja; o feudalismo era o sistema que organizava a sociedade em si, herdando a filosofia grega e o direito e o idioma latinos.

Falar do declínio do período medieval não é falar, pois, de declínio só de um dos aspectos acima. A queda do sistema feudal foi se dando por (e gerando) mudanças no homem e na sociedade, o que afetou também a hegemonia clerical.

Como acontecera na Grécia antiga, o homem precisava agora de outras explicações para a realidade à sua volta. Com o advento das Grandes Navegações, os horizontes se expandiam. O comércio refervilhando aos poucos, possibilitou o acesso a outras culturas também por obras literárias que foram sendo traduzidas. A Grécia clássica era redescoberta e as artes sofriam efervescência. Claro que tudo isso com o patrocínio da burguesia, que queria ascender, primeiro socialmente, depois politicamente, não só com benefícios, mas com participação (se não detenção mesmo) do poder.

As mudanças queridas, patrocinadas e efetivadas pela burguesia foram se dando aos poucos. Nada disso aconteceu de uma hora para outra, mas com o passar das décadas e dos séculos, culminando na Revolução Francesa.

Outro aspecto a ser ressaltado é que essa mudança de mentalidade acarretou mudanças em todas as esferas da sociedade. Das cinzas do feudalismo foi se configurando o capitalismo. Da hegemonia da Igreja Católica, veio o cisma do Ocidente. A nova ética protestante casava muito bem com o espírito do capitalismo e, portanto, com o ideal da burguesia.

Pela própria índole do capitalismo era necessária a expansão dos mercados. Era mister que houvesse um espírito aventureiro e científico que possibilitasse a concretização do que se almejava. O homem voltou a ser o centro e a medida das coisas. Era o que pregava o Racionalismo.

Esse era o contexto do que se chamava de Ciência no período que antecede o Racionalismo. É importante que se o tenha claro na mente para uma melhor compreensão do fenômeno e uma melhor percepção do porquê ele não representou uma ruptura plena e imediata com o paradigma científico precedente.

1.1 René Descartes

A produção intelectual de Descartes foi uma inovação em diversos sentidos. O “Discurso do método”, sua obra mais famosa é pequena em extensão, porém grande nas idéias que veicula. E mais, foi escrita não em latim, como gostavam e prescreviam os escolásticos, mas em vernáculo (francês), o que possibilitava o conhecimento não apenas aos eruditos como a um círculo um pouco maior de pessoas (um pouco porque a maior parte da população era analfabeta). De qualquer maneira, tudo isso não deixou de ser um impacto e chamou logo bastante atenção.

Tiago Adão Lara ressalta que:

Católico convicto, Descartes se propôs encontrar, pela filosofia, fundamentação para uma ordem sócio-política que não descambasse no ateísmo e no materialismo. Essa fundamentação não podia mais ser pedida à fé, pois a Europa estava dividida nesta época: protestantes e católicos brigavam, entre si, para obter a hegemonia.
Esse escopo de Descartes explica por que sua filosofia se esmera em provar, racionalmente, a existência de Deus e a existência da alma como princípio nitidamente diverso do corpo. (1986, p. 35).

É consenso unânime ou, pelo menos, quase unânime, que Descartes inaugura a Idade Moderna em âmbito filosófico. Portanto, como nesse período ainda ao se havia estabelecido a demarcação entre filosofia e ciência como hoje a temos, pode-se dizer que inaugurou ou foi um dos fundadores da ciência moderna também.

2. Características do paradigma racionalista de ciência
Descartes via o mundo como uma máquina. No Discurso do método isso fica bem claro. Ele compara o mundo a um relógio. A natureza nada mais é que um conjunto de peças que deve estar em perfeito funcionamento.

Com essa obra ele pretendia partilhar com o leitor o método que encontrou para si a fim de alcançar uma ciência universal que possa elevar a nossa natureza ao seu mais alto grau de perfeição.


Se este discurso parecer demasiado longo para ser lido de uma só vez, poder-se-á dividi-lo em seis partes. E, na primeira, encontrar-se-ão diversas considerações atinentes às ciências. Na segunda, as principais regras do método que o Autor buscou. Na terceira, algumas das regras da Moral que tirou desse método. Na quarta, as razões pelas quais prova a existência de Deus e da alma humana, que são os fundamentos de sua metafísica. Na quinta, a ordem das questões de Física que investigou, e, particularmente, a explicação do movimento do coração e algumas outras dificuldades que concernem à Medicina, e depois também a diferença que há entre nossa alma e a dos animais. E, na última, que coisas crê necessárias para ir mais adiante do que foi na pesquisa da natureza e que razões o levaram a escrever.1

O método de Descartes é o da dúvida. Para a razão funcionar bem, é necessário limpar o terreno da mente de todo preconceito; é preciso, num primeiro momento duvidar de tudo, principalmente do que já se tem estabelecido como verdade absoluta, como dogma. A partir de então, deve-se buscar verdades elementares, verdades que se bastem a si próprias e não precisam de outras precedentes. Pois, duvidando de tudo, aquilo que conseguir se estabelecer como verdade depois disso tem necessariamente que ser uma verdade absoluta. O que se quer com esse método é a garantia de idéias claras e distintas.

Cartésius (“Descartes” em latim – daí o nome método “cartesiano” e “plano cartesiano”) resume e enumera apenas quatro regras, quatro passos a serem dados no caminho de seu método:

O primeiro era o de jamais acolher coisa alguma como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção. E de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.
O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis fossem para melhor resolvê-las.
O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.
E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada omitir. (p.45) 2



Como podemos perceber, esse método é um tanto matemático. Nada mais natural, considerando que essa era uma das áreas de interesse e pesquisa de Descartes, além da geometria e da física, por exemplo. Vale lembrar que nos séculos XVI e XVII não havia a mesma demarcação do saber tal como hoje temos.

Ser filósofo não excluía ser investigador de outros campos. Ao contrário, às vezes até supunha. Para Descartes, a Ciência era uma árvore da qual a raiz é a filosofia; a física é o tronco e os ramos são os outros saberes particulares.

Assim, o que Descartes almejava era um método que fosse uma espécie de panacéia racional, capaz de resolver todos os problemas da investigação filosófica e racional. Porém, não foi ele quem viu seu projeto levado a cabo, mas Newton, que séculos depois realizou a façanha de medir e estudar a natureza em seus fenômenos através de fórmulas matemáticas.

A física de Newton elevou ao ápice as contribuições e anseios das obras de Kepler, Copérnico, Descartes e Galileu, numa síntese de maestria singular. De modo que a visão do mundo como uma máquina como temos hoje teve seus alicerces assentados desde esses pensadores.

Ver o mundo como uma máquina, a qual podemos decompor em partes menores até compreendê-la a partir dessas partes trouxe muita influência e resultados positivos para as diversas ciências, como essas começaram a desenvolver-se. Esse projeto foi levado a cabo sobretudo a partir do Positivismo derivado do empirismo baconiano.

Fritjof Capra assim se expressa a esse respeito:

Enquanto Galileu realizava engenhosos experimentos na Itália, Francis Bacon descrevia explicitamente na Inglaterra o método empírico da ciência. Bacon foi o primeiro a formular uma teoria clara do procedimento indutivo – realizar experimentos e extrair deles conclusões gerais, a serem testadas por novos experimentos –, e tornou-se extremamente influente ao defender com vigor o novo método. Atacou frontalmente as escolas tradicionais de pensamento e desenvolveu uma verdadeira paixão pela experimentação científica. (1982, p. 51).


Com o tempo, a escola empirista inglesa foi sobrepujando a racionalista francesa. Conseqüentemente, o indutivismo de Bacon foi tomando o lugar do dedutivismo de Descartes. Com o advento do Positivismo de Augusto Comte, a ciência foi elevada á cátedra de supremo saber, único, racionalmente válido, mais perfeito de todos. Estava, portanto, estabelecida como definitivamente separada da filosofia e da religião.

Interessa-nos aqui a visão de mundo que permaneceu por detrás e por debaixo de tudo isso: a visão mecanicista que se iniciou com Descartes.

3. Influências do paradigma racionalista nas diversas ciências

Descartes retomou uma cisão no ser humano já realizada pelos gregos, a saber, o homem é corpo e alma. Ele conseguiu agravar essa separação. O homem é uma coisa pensante (res cogitans) dentro de uma coisa extensa (res extensa); uma alma aprisionada num corpo, com o qual se comunicava através de uma medula cerebral.
Conforme já visto, o modelo cartesiano comparava a natureza e o corpo do homem, bem como dos animais, a uma máquina, mais especificamente um relógio – cuja fabricação, aliás, atingiu um alto grau de perfeição em sua época –, pois era um modelo privilegiado para outras máquinas automáticas: “considero o corpo humano uma máquina. […] Meu pensamento […] compara um homem doente e um relógio mal fabricado com a idéia de um homem saudável e um relógio bem feito” (Capra, 1982, p. 57 citando Descartes).
No parágrafo seguinte, Capra continua:

A concepção de Descartes sobre organismos vivos teve uma influência decisiva no desenvolvimento das ciências humanas. A cuidadosa descrição dos mecanismos que compõem os organismos vivos tem sido a principal tarefa dos biólogos, médicos e psicólogos nos últimos trezentos anos. A abordagem cartesiana foi coroada de êxito, principalmente na biologia […]. (1982, p. 57).

Dentre os êxitos que essa maneira de ver o mundo e o homem, esse paradigma científico, propiciaram basta olhar para os avanços da microbiologia, da genética, da física e da química entre outras. Para uma visão mais abrangente dos resultados que a ciência alcançou com o assim chamado modelo reducionista ou mecanicista, vale remeter-nos ao segundo capítulo de O ponto de mutação, onde Fritjof Capra faz uma análise bastante significativa e pertinente.

Aqui interessa-nos reconhecer que a ciência foi sendo construída nesses moldes, mas que ainda antes do século XX surgiram as primeiras críticas, incoerências e dificuldades do modelo reducionista, ainda que no início fossem apenas parciais. Na física, por exemplo, a “descoberta” dos campos de força eletromagnéticos forçou os cientistas a uma adequação até da própria linguagem à nova realidade com que se deparavam.

“Crise” maior adveio da Teoria da Relatividade de Einstein, do Princípio de incerteza (Heisenberg) e de todo o desenvolvimento da física quântica, que fez os físicos reverem conceitos e definições, pois nem mesmo o vocabulário de que dispunham favorecia ou permitia a expressão das novas “descobertas” realizados por meios outros que não a metáfora.

4. As limitações do paradigma

Sem dúvida são notórias as mudanças que a revolução causada pelo paradigma racionalista trouxe para a ciência e a sociedade. Entretanto, não podemos nos deixar pela ilusão da ideologia segundo a qual a ciência é o único saber racionalmente válido, que contem a si no mínimo a possibilidade de todas as respostas e a panacéia para todos os males da humanidade. Não importa que cresçamos ouvindo isso. Nesse ponto a crítica de David Hume ainda é um tanto pertinente.

Para que se reconheçam, no entanto, as limitações de um modelo reducionista como o sobre o qual nossa ciência em última instância se assenta, basta que prestemos bastante atenção ao próprio discurso ideológico que subjaz em suas falácias.

Na medicina, por exemplo, a qual é alegada como um modelo dos benefícios do paradigma mecanicista, diz-se que esse paradigma ajudou a combater e erradicar doenças, a elevar a qualidade e a estimativa de vida da população, a melhorar, enfim, as condições de vida do ser humano na Terra.

Comecemos pelo próprio conceito de “doença”. Devido aos avanços da microbiologia, de fato deu-se um salto considerável, da crença na geração espontânea da vida ao conhecimento de organismos microscópicos, e o processo da pasteurização também assegurou uma maior higienização para os produtos do gênero alimentício. Entretanto, esses mesmos avanços como que impediram os médicos e biólogos de compreender o ser humano como um ser de relações, como ser não extra, mas parte do meio ambiente em que vive. Não ajuda no processo de cura uma compreensão de doença como algo muito localizado e isolado, causado por um fator específico – o agente causador – que deve, por sua vez, ser combatido com um medicamento específico. Esquece-se que o ser humano em questão é um “doente” que traz já em si o potencial de cura. Que sua “doença” não é necessariamente causada por um único fator, mas que os fatores psicológicos e ambientais também influenciam, e muito! Esquece-se também que a própria história mostra que não foi só a medicina quem proporcionou um aumento na qualidade de vida da população, mas antes de tudo uma profunda mudança de hábitos e mentalidades. Até porque, como é bem conhecido, a medicina na sociedade capitalista em que se vive não é de alta qualidade disponível a todos de maneira igualitária.
Nesse sentido, é muito importante a crítica feita por Capra e vale, uma vez mais, remeter-nos a ela, pois sem dúvida não é só na medicina que se podem ver as críticas e os danos (por vezes catastróficos) que uma visão puramente reducionista de ciência pode trazer, ao invés dos benefícios prometidos.

5. Considerações finais

À guisa de conclusão, não seria justo, ou tampouco coerente, falar de paradigma racionalista de ciência e não ouvir o que Karl Popper nos tem a dizer.
Elizabeth de Assis Dias, citando Popper diz que ele se considera um racionalista de um tipo especial:

Por racionalista entendo um homem que deseja compreender o mundo e aprender através da discussão com outros homens. (Nota-se que eu não digo que um racionalista sustente a teoria errada segundo a qual os homens são totalmente ou parcialmente racionais). Por “discutir com os outros” entendo, mais em especial, criticá-los; solicitar a crítica deles; e tentar aprender com isso. (1992, p.53).

Para que se aproveite e melhore tudo o que se conseguiu até aqui com a nossa ciência, é preciso que se realize uma outra revolução cultural. É preciso mudar não apenas mentalidades e costumes da população, como o modelo de ensino praticado para a formação de nossos cientistas. É necessário que se desmascarem as ideologias e se proponham teorias válidas que responda às reais necessidades da humanidade.

É isso que Popper quer propor quando define a falsificação e não a verificação como critério de cientificidade de uma teoria, a despeito de todas as críticas que se possam fazer à sua epistemologia normativista (as quais, na verdade, só a confirmam se bem prestarmos a atenção).

Segundo seu critério, devemos buscar é bombardear de todas as formas uma teoria, com todas as críticas possíveis, no lugar de tentar protegê-la, prová-la e salvaguardá-la. Somente assim seremos capazes de vencermos nossos medos e temores, e desacomodarmo-nos de nosso “mundinho”, estreita mundivisão e horizontes reduzidos.

6. Referências bibliográficas

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. 14 ed. São Paulo: Cultrix, 1995. trad. Newton Roberval Eichemberg.
DESCARTES, René. Discurso do método. Abril Cultural – coleção Os pensadores.
DIAS, Elizabeth de Assis. Popper e as ciências humanas. Belém: UFPA, 1992.
LARA, Tiago Adão. Caminhos da razão no ocidente – a filosofia ocidental, do Renascimento aos nossos dias. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

1 Advertência ao Leitor em Discurso do Método.
2 Discurso do método, 2ª parte. Neste trabalho é usada sempre a tradução de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior para a coleção Os pensadores, da Abril Cultural.

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