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O idealismo kantiano não é individualismo

Por: Anderson Rodrigo de Oliveira

A modernidade (e com isso também a pós-modernidade) é marcada pelo fator subjetivista, do sujeito, do indivíduo. Herança essa dada pelos humanistas da época do Renascimento, que, ao fazerem uma nova releitura da realidade, saem da questão teocêntrica da Idade Média e entram no antropocentrismo. Este caminhará por toda a Idade Moderna, contexto histórico, cultural e filosófico ao qual se encontra inserido Immanuel Kant.

Alemão do século XVIII, Kant compartilha dos ideais iluministas de sua época. Ideais cujas forças se dão na primazia da razão, na razão do sujeito. No duelo entre racionalistas, que já trazem o dado da racionalidade, mas ainda não se desvencilham do objeto, e empiristas, cuja tese do conhecimento só se torna possível por que há o contato com o objeto, Kant tira o sujeito agente do conhecimento da órbita e o coloca no centro, como fez Copérnico com a astronomia quando provou que era a terra que girava em torno do sol e não o contrário. A teoria de Kant é assim chamada de revolução copernicana do conhecimento.

A teoria do conhecimento kantiana é expressamente modernista. Nela percebe-se o quanto o sujeito do conhecimento é centro de toda a especulação gnosiológica. O dado da experiência é extremamente importante, contudo. Kant não descarta o dado empírico assim como não descarta a possibilidade racionalista, mas as une, as sintetiza. Junta os juízos sintéticos a posteriori do conhecimento empírico e os juízos analíticos a priori do conhecimento racionalista. Nascem, então, os juízos sintéticos a priori e o idealismo transcendental kantiano.

O idealismo transcendental kantiano é a concepção de um sistema dado como síntese e superação das duas correntes da filosofia, racionalismo e empirismo. O pensamento de Kant é uma etapa decisiva. Sua fecundidade está longe de esgotar-se e foi ponto de partida para a filosofia moderna. O pensamento kantiano, desse modo, marcou diversos outros pensadores posteriores a sua época, como Fichte, Schelling, Hegel e Shopenhauer. Suas obras são referência fundamental para diversas correntes filosóficas.

Os idealistas realçaram o caráter criativo atribuído a Kant à razão humana e tanto os materialistas quanto os positivistas assimilaram a crítica kantiana à metafísica. A problemática das relações entre sujeito e objeto recebeu de Kant uma formulação que revelou os mais diversos aspectos da realidade. A teoria do conhecimento formulada por Kant teve um longo período de amadurecimento. Formulada numa de suas principais obras, a Crítica da razão pura, a teoria kantiana tem como objetivo a determinação de princípios que governam o entendimento humano e os limites de sua aplicação. Isso assenta o conhecimento científico sobre bases seguras, dando ao mesmo extraordinário desenvolvimento.

As próximas críticas kantianas darão um fundamento sólido à convicção de que existe uma ordem superior, capaz de satisfazer às exigências morais e ideais do ser humano. Fundamento que poderia ser encontrado na lei ética, autônoma e independente. Tudo isso tornaria esse fundamento imune às críticas produzidas dentro do campo restrito da ciência.

Contudo, uma reflexão é necessária: se Kant dá abertura ao idealismo, cuja centralidade se faz também no subjetivismo, foi sua teoria responsável também por gerar o individualismo presente hoje na sociedade pós-moderna? Claro que a intenção do subjetivismo de Kant não era essa. O sujeito transcendental em Kant (sujeito aquele que não está mais na órbita, mas no centro, conforme já discorrido anteriormente) é uma estrutura que se encontra em toda a humanidade. É nesse sentido de algo, digamos, universal, presente como estrutura em todos, que Kant chama de transcendental.

Portanto, a interpretação dada posteriormente ao subjetivismo transcendental kantiano de algo que leva ao individualismo parece-nos, para os que se aprofundam na teoria do filósofo, algo anacrônico. A teoria kantiana é justamente buscar uma universalidade para sua teoria do conhecimento. A propensão ao individualismo nasceu depois, não é, por assim dizer, uma preocupação kantiana a priori.

Desse modo, Kant entra como um pai para a modernidade por sua teoria do subjetivismo. O dado da razão humana como centralidade do conhecimento é, sem dúvida, algo de muito forte na modernidade e que se extrapola até a pós-modernidade. O sujeito da teoria do conhecimento de Kant é expressão evidente da modernidade.

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