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“Não se ensina filosofia, mas a filosofar”

Por: DONALDO DE ASSIS BORGES

Donaldo de Assis Borges[1]

Marco Antonio de Souza[2]

A afirmativa de Kant “Não se ensina Filosofia, mas a filosofar”, enseja uma série de questionamentos acerca do ensino de filosofia. A assertiva coloca uma questão importante, ou seja, se não se ensina filosofia, mas a filosofar, como se ensina a filosofar? Nesse sentido, há um ponto de partida importante que, por analogia, pode conduzir o raciocínio a partir da idéia de que em educação só se aprende “fazendo”. O ato de aprender está vinculado ao ato de fazer, ou seja, de inserir os conteúdos teóricos nas práticas em torno do objeto que se deseja conhecer. O raciocínio pode ser transportado analogicamente para o ensino de filosofia para concluir, pelo menos provisoriamente, de que se ensina a filosofia “filosofando”, daí poder-se inferir, por extensão de raciocínio, que “não se ensina a filosofia, mas a filosofar”.

O problema que se apresenta, a princípio, é o fato de que a filosofia não se define por um objeto e método próprios como na ciência. A idéia de que a filosofia abarca conhecimentos difusos e que também se ressente de um método próprio faz que alguns pensem que o filosofar não é seguro. A idéia difusa do conhecimento filosófico faz surgir um outro questionamento: em que consiste, então, essa ação que o filosofar aponta? O que deve caracterizar o filosofar?

A ação que o filosofar aponta é a exigência de um método na forma de um exercício, além de uma atitude que deve ser filosófica LUCKESI (1992). A atitude filosófica requer o afastamento de diversos preconceitos, entre eles, aquele que leva as pessoas a pensarem que o filosofar é inútil, difícil e complicado, como se fosse tarefa para gente ultra-especializada. No entanto, a atitude filosófica requer uma postura diferenciada, mesmo diante da constatação do alto grau de saber de alguns filósofos, deve-se entender que o filosofar não está fechado somente aos filósofos consagrados ou com formação acadêmica relevante.

A filosofia não se restringe ao campo limitado da ciência, embora possa ser uma reflexão sobre a ciência. A filosofia é um corpo de entendimentos que compreende e dá significado ao mundo e à existência. Nesse sentido, importa saber como é que se constitui a filosofia, como é que se constrói esse corpo de entendimentos, que se pode assumir criticamente como aquele que se quer para o direcionamento da própria experiência e das questões fundamentais que envolver o ser, os valores, a realidade e as práticas.

O exercício do filosofar proposto por LUCKESI (1992), no capítulo denominado “o exercício do filosofar”, demanda a execução de três passos didaticamente seqüenciais, num processo dialético. O primeiro passo do filosofar é inventariar valores que explicam e orientam a própria vida e a vida da sociedade, e que dimensionam as finalidades da prática humana. Deve-se, portanto, perguntar quais são os valores que dão sentido e orientam à vida familiar; se se está analisando a família, quais valores compreendem e orientam a vida econômica, se se estiver questionando a economia; quais valores compreendem e orientam a educação, se se estiver questionando a educação, ou seja, se esta for o objeto de estudos e assim por diante. O objetivo de questionamentos dessa natureza é levar o sujeito a tomar consciência das ações, do lugar para onde se está e da direção que toma a vida. Direção que nasce tanto da consciência popular como da sedimentação do pensamento filosófico e político que se formulou e se divulgou na sociedade com o passar do tempo.

O segundo passo do filosofar é o momento da crítica. Depois de realizado o inventário de valores é preciso submetê-los à crítica, questioná-los por todos os ângulos possíveis para verificar se são significativos, e se compõem o sentido que se quer dar à existência.

O terceiro passo do filosofar é o memento da construção crítica de valores que sejam significativos para compreender e orientar as vidas individuais e dentro da sociedade como guia da ação na direção mais correta.

Destarte, LUCKESI (1992), sintetiza três passos do filosofar: (i) inventariar os valores vigentes; (ii) criticá-los; (iii) reconstrui-los. É um processo dialético que vai de uma determinada posição para a sua superação teórico-prática.

Na medida em que se está inventariando os valores vigentes, está-se, ao mesmo tempo, criticando-os e reconstruindo-os. Os momentos descritos como passos do filosofar são apropriados para uma exposição didática, contudo esses momentos não são seccionados, pois um nasce dentro do outro.

O exercício do filosofar exige, pois, inventariar conceitos e valores; estudar e criticar valores; estudar e reconstruir conceitos e valores, e para que isso ocorra, é preciso olhar não só o dia-a-dia, mas ler e estudar o que disseram os outros pensadores, os outros filósofos. Eles poderão auxiliar para que se atinja níveis superiores de entendimento, enfim, outras categorias de compreensão.

O exercício do filosofar pode ser o fio condutor para que se aprenda filosofia, sem, contudo, que a filosofia seja propriamente ensinada. A sua apreensão deverá decorrer mais de uma relação que tenha no aluno o ponto de partida dos questionamentos infinitos que a filosofia proporciona, mediado pelo professor, auxiliado pelos pensadores, suas idéias, enfim pelas principais correntes de pensamento de um passado distante no tempo, mas próximo na história. Eles têm uma contribuição a oferecer. É o auxílio no trabalho de construir o entendimento filosófico do mundo e da ação.

A consciência do professor determina que, precipuamente, sua tarefa é ensinar filosofia, essa é a meta, no entanto, didaticamente, a filosofia deverá ser utilizada como meio no exercício do filosofar, para, então, de forma oblíqua e indireta o professor realize os fins do seu labor: ensinar filosofia, por mais paradoxal que seja essa assertiva em face da expressão kantiana, sob análise.

A frase de Kant “Não se ensina filosofia, mas a filosofar” inserida nos processos de aprendizagem revela uma verdade da filosofia como corpo de entendimentos, mas se distancia de uma verdade absoluta nos confins da terminalidade genérica, que exige apreensão de conteúdos expressos nas idéias filosóficas e nas principais correntes de pensamento, e permita ao aluno, ao final, dizer que aprendeu filosofia.

REFERÊNCIAS

LUCKESI, C. C. Filosofia da educação. São Paulo: Cortez, 1992.

PALACIOS, José Gonzalo Armijos. Ensina-se a filosofar, filosofando. Disponível em: http://revistas.ufg.br/index.php/philosophos/issue/view/567/showToc. Acessado em: 02.set.2009.

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[1] Docente da Universidade de Franca e do Centro Universitário de Franca – Uni-FACEF.

[2] Docente da Universidade de Franca.

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