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Cultura amazônica

Por: Saulo Maurício Silva Lobo

Hoje em dia a Amazônia está em moda. Cada vez mais se ressalta seu aspecto mítico e mesmo se criam e repassam, pelos veículos de comunicação, lendas urbanas a seu respeito, carregadas de ideologias.

Ano a ano assistimos a um constante e cada vez mais intenso refervilhar de interesse em cima da Amazônia, na mídia, nos livros, no imaginário coletivo. Desde principalmente Chico Mendes os movimentos ambientalistas ganharam expressividade por essas bandas. Cada vez mais ONG’s e cientistas chegam nessas paragens bravias e despovoadas. Aumentam os índices da biopirataria e do lucro da exploração dos recursos naturais em proporção direta ao da diminuição da biodiversidade, da renovabilidade da vida, da disponibilidade e viabilidade dos recursos para o ser humano.

Ao mesmo tempo, faz-se uma tentativa pelo menos ideológica de uniformizar e generalizar sempre mais a Amazônia. Quem não a conhece, mesmo dentro do Brasil, associa a ela a idéia de índios, floresta equatorial, rio Amazonas, bichos… e sempre com a conotação mais pejorativa possível. Parece haver um esquecimento de que ao toque do projeto “civilizatório” europeu nada permanece como era. Aqui não foi diferente. Há desertos no meio da floresta, como já havia também vegetações de cerrado ao norte. Os povos indígenas já não são há muito tempo os únicos habitantes da região. Há muito concreto no meio da floresta e mais da metade da população amazônica vive nas cidades. As periferias de Manaus incham num ritmo acelerado, junto com todos os problemas sociais e ambientais desse inchamento decorrentes. Ao lado do mítico, do folclórico e do lendário, floresce uma produção científica, tecnológica, industrial já não mais insipiente e desprezível.

Faz-se necessário reconhecer que há várias “amazônias” dentro da Amazônia. Que para compreendê-la como totalidade não se pode suprimir as suas tão variadas diversidades. Que na “cultura amazônica” existem várias culturas.

Talvez o próprio conceito de cultura precise de uma certa revisão. O que se pretende com esse trabalho, cujo caráter é apenas introdutório, é oferecer pistas para uma reflexão mais acurada a respeito da questão da cultura na Amazônia. Partindo do estabelecimento acerca de o que vem de fato a ser cultura, passaremos a uma análise histórica sobre os diversos povos que aqui chegaram e já estavam e deram a sua contribuição para o quadro cultural que aqui hoje temos, para, enfim, quem sabe apontar algumas pistas a respeito de para onde caminhamos ou o que e aonde pretendemos chegar.

CULTURA NA AMAZÔNIA

1. Estabelecendo conceitos

“Cultura” é um termo capaz de encher bibliotecas ou, em nossos tempos, muito espaço de um (ou quem sabe até mais) disco rígido de computador. Com este trabalho estamos longe de pretender esgotar o significado do termo, ou oferecer a visão mais correta, mais adequada, mais completa, mais abrangente. Vale lembrar o dito popular: “todo ponto de vista é a vista de um ponto”.

Nesse sentido, utilizaremos a contribuição de outros autores para, a partir daí, tentar elaborar ou pelo menos esboçar um conceito que seja instrumentalizável para aquilo a que nos propomos.

Nada mais natural, pois, que recorrer a bons dicionários. Sendo assim, eis o que nos oferece o Aurélio desde o terceiro significado para o termo:

O complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade; civilização […]. 4. O desenvolvimento de um grupo social, uma nação, etc., que é fruto do esforço coletivo para o aprimoramento desses valores; civilização, progresso […]. 5. Atividade e desenvolvimento intelectuais; saber, ilustração, instrução. (1986, p. 508).

Abbagnano, em seu Dicionário de filosofia oferece-nos mais de quatro páginas sobre esse verbete. Vale destacar aqui o parágrafo introdutório:

Esse termo tem dois significados básicos. No primeiro e mais antigo, significa a formação do homem, sua melhoria e seu refinamento. F. Bacon considerava a C. nesse sentido como a “geórgica do espírito” […], esclarecendo assim a origem metafórica desse termo. No segundo significado, indica o produto dessa formação, ou seja, o conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados, civilizados, polidos, que também costumam ser indicados pelo nome de civilização. A passagem do primeiro para o segundo significado ocorreu no séc. XVIII por obra da filosofia iluminista, o que se nota bem por esse trecho de Kant: “Num ser racional cultura é a capacidade de escolher seus fins em geral (e portanto de ser livre). Por isso, só a C. pode ser o fim último que a natureza tem condições de apresentar ao gênero humano” […]. Como “fim”, a C. é produto (mais que produzir-se) da “geórgica da alma”. No mesmo sentido, Hegel dizia: “Um povo faz progressos em si, tem seu desenvolvimento e seu crepúsculo. O que se encontra aqui, sobretudo, é a categoria da C., de sua exageração e de sua degeneração: para um povo, esta última é produto ou fonte de ruína” […]. (2003, p. 225).


Aquilino de Pedro diz que a cultura “é a maneira de pensar, sentir e agir comum a um povo. É o enfoque da existência recebido do povo no qual a gente nasce. A cultura evolui, às vezes muito lentamente, às vezes com grande rapidez, como sucede em nossos dias, por influxo dos gigantescos meios de comunicação” (1999, p. 71).

A partir dessas três definições podemos estabelecer alguns traços em comum que perpassam a noção que o conceito quer expressar. Primeiramente a cultura é própria do ser humano. Abelhas, castores, formigas e os animais em geral, enfim, são capazes de construções e organizações magníficas que nos encantam e deixam pasmos. Entretanto, não produzem cultura, por sua vida é cíclica, a ciência é capaz de os prever, quer nos comportamentos individuais, quer nos coletivos, onde quer que estejam.

Seres humanos, por outro lado, produzem cultura porque são capazes de estabelecer normas e convenções quando vivem em sociedade. Daí que não existe cultura de um homem só. Outra noção que se depreende dessas três definições: cultura supõe um povo, uma nação, um grupo, que a vive, transmite e também transforma, Mas a noção de cultura não se aliena da noção de coletividade.

Cultura é o conjunto de convenções, portanto: a maneira de pensar, os hábitos e costumes de determinada coletividade, suas crenças etc.

Então, cultura é o conjunto de formas e convenções sociais estabelecido por um povo, que o vive, pratica, transmite e transforma com o passar do tempo.

Aqui será abolida a noção de cultura como “civilização” para que se evite conclusões lógicas do tipo: “povo sem civilização é povo sem cultura”. Não existe isso de “povo sem cultura”. E quando se fala em povos ou culturas primitivas, não se tome no sentido de “menos evoluídos” mas no sentido puramente cronológico e etimológico de “que vieram primeiro”.

Referências:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

PEDRO, Aquilino de. Dicionário de termos religiosos e afins. 10 ed. Aparecida: Santuário, 1999.

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