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Leitura Para Além das Quatro Paredes

Por: edimar roberto de lima sartoro

Edimar Roberto de Lima Sartoro[1]

edircc@hotmail.com

Resumo: Neste ensaio procuro fazer uma abordagem acerca da compreensão do que seja leitura e ainda do que seja um sujeito-leitor. Discuto a leitura ligada ao viés social, apresentando os leitores como sujeitos ativos do processo e não como meros espectadores passivos como por muito tempo foi concebido. Discuto ainda as dificuldades que as escolas têm enfrentado para formar um cidadão crítico capaz de ler não somente palavra, mas também o mundo que o cerca.

Palavras-chave: Leitura. Sujeito leitor. Escola.

introdução

A natureza do ato de ler é, sem dúvida nenhuma, uma experiência singular, por meio dela lemos não somente livros e textos, mas também o mundo que nos rodeia. Através desta tecnologia novos horizontes se desvelam diante de nossos olhos, por  dela podemos pensar e refletir nossa realidade, reavaliar conceitos, superar limites, resolver problemas, etc. A leitura se apresenta deste modo de forma aberta e contínua, não ficando apenas atrelada a uma escolarização da mesma, mas ultrapassando os muros escolares, fazendo parte do mundo concreto dos sujeitos-leitores. Esta compreensão de leitura nem sempre foi assim, inicialmente bastava o saber-decifrar, e isso por um longo período foi considerado saber-ler. Hoje tal compreensão é insuficiente não basta apenas dominar a tecnologia do ato de ler, é preciso que os indivíduos também saibam fazer uso social da mesma, incorporando-as suas vidas, relacionando-a as suas necessidades, conflitos, valores, enfim fazer dela uma prática comum ao seu dia-dia.

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9394/96) na seção que trata de questões particulares ao ensino fundamental em seu artigo 32 afirma de forma clara que seu maior objetivo é a formação básica do cidadão. Para tal em seus quatro incisos desenvolve o que contribuiria para tal formação. Desse modo, destaca-se: a compreensão do ambiente natural e social, desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores, fortalecimento dos vínculos de família e o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo.

 Quero resgatar aqui, aquilo que está no inciso primeiro do artigo 32 “o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo”. O que me chama a atenção neste inciso é o termo usado “pleno domínio da leitura” que a priori parece-me um tanto utópico quando levado em consideração o descaso que o Brasil sempre deu e tem dado à educação.
O que é oferecido acima referente à compreensão do que seja leitura e ainda do que seja este sujeito-leitor, a meu ver ainda está muito longe da realidade vivenciada pelos nossos alunos e alunas. Não quero aqui tecer uma crítica à LDB, mas idear a leitura como algo pronto e acabado, me parece de certa maneira pensá-la como os produtos que o capital criou, onde podemos comprar algo colocar em uma caixa, embalar e levar para casa. Tal comparação é válida quando me permito acreditar que alguma coisa tem seu “pleno domínio”, assim, corro o risco de acreditar que nada muda e que tudo está parado, imóvel.
No entanto, o mundo está sempre em constantes transformações, onde são perceptíveis as mudanças tanto no âmbito dos conceitos, da cultura, da língua, da ética e moral, como também da compreensão do que seja o homem e mulher. Como diria Freire “o homem não é, está sendo”. De acordo com Moreira e Kerber a leitura também é processo, não fechado, mas aberto e contínuo:

A leitura é processo e não resultado, pronto e acabado como equivocadamente se pensou por muito tempo. A leitura não é algo fechado, inerte e definitivo, mas um processo contínuo que, ao desenvolver-se, leva consigo o próprio sujeito que o articula juntamente com sua história, sua formação e seu imaginário, além de um contexto sócio-histórico que se caracteriza por colocar a própria questão da leitura diante da necessidade de se compreender as condições de produção de tal leitura. (2003, pp.29-30)

A compreensão da leitura como processo e não resultado, vai na contra mão do “pleno domínio da leitura”. E é nesse processo dialético que está inserido o sujeito-leitor que transforma e é transformado pelo que lê, que não lê apenas palavras, mas vivências, fatos, objetos, experiências etc. Como bem disseram Morreira e Keber: (2003, p.31) “A leitura tem a ver com a capacidade de interpretação dos fatos que se geram no meio, ou que surgem a partir dos novos paradigmas que se impõem como desafios no mundo moderno e globalizado”. Ou ainda como explica Freire: “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra”. Mas o que é realmente ler?

Ler não é apenas passar os olhos por algo escrito, não é fazer a versão oral de um escrito. Quem ousaria dizer que sabe ler latim só porque é capaz de pronunciar frases escritas naquela língua? Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é. (1980, p.3)
Esta afirmação, problematiza um sujeito-leitor que não lê somente palavra, lê mundo. Por isso a formação de um sujeito-leitor ativo e dinâmico se faz necessário. Sobre isso reforça Garcez (1999, p. 585) “A experiência da linguagem, e a leitura especialmente, não é solitária, é um produto construído na interação em que os participantes atuam de forma ativa”. E é nessa leitura dialógica que há entre o leitor e o objeto lido que se desencadeia um processo concreto de interpretação e reflexão.

Não obstante, ainda é perceptível que as escolas encontrem muitas dificuldades em dialogar com a bagagem que os sujeitos já possuem ao chegarem à escola. Acredito que isso seja o reflexo de um longo processo sócio-histórico que por muito tempo considerou alunos e alunas como: “tabula rasa”. Este era o modo pelo qual a concepção mecanicista de alfabetização percebia seus educandos. Hoje sabemos, através de pesquisas e estudos principalmente das contribuições da psicogênese da língua escrita de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, que alunos e alunas não são meros expectadores, mas sujeitos que pensam e constroem hipótese de como a leitura e a escrita se organiza.

 Desse modo, surge um novo paradigma, num diálogo sempre de mão dupla onde a criança ou o adulto são estimulados/as trazer consigo suas informações, experiências, problemas, sonhos, etc. Como bem disse Neusa Sorrenti ao falar da função da poesia que é, “alargar horizontes e humanizar pessoas”, penso que também cabe a escola este grande desafio de “alargar horizontes e humanizar pessoas”.

A leitura através deste prisma desafia a escola a olhar para a leitura com outros olhos, compreendendo que o ato de ler não deve estar confinado apenas à sala de aula ou biblioteca, mas estender-se a todas as situações de vida concreta deste sujeito-leitor, como, por exemplo: no bairro onde mora, nas relações com a família, nos círculos de amizades, no grupo social do qual faz parte, etc.

No atual momento em que vivemos, é necessário que a escola perceba os acenos de um mundo que se apresenta extremamente sedutor. Percebo que cada vez mais crianças, jovens e adultos são “seduzidos” por imagens, sons, luzes, efeitos, eletro-eletrônicos, etc. Não quero dizer que isso seja mau, no entanto o que questiono é a escola que a margem disso tudo continuam ainda no “preto e branco”, ou seja, giz e quadro negro.
Diante disso me pergunto o que fazer? Como a escola pode proceder e tirar proveito de tais enfrentamentos? Faço estes questionamentos na tentativa de achar um meio de aproveitar tamanhas ofertas.

 Os indivíduos inseridos em ambientes escolares deveriam ser estimulados por seus professores e professoras a pensar e refletir sua realidade, a fazer um entrelaçamento entre a escola e o mundo, trazendo, quem sabe, seu mundo para a escola e levando a escola para seu mundo, deste modo a escola não estaria divorciada da sociedade. Como eu fiz parte do modelo de escola que era totalmente desvinculado da realidade, posso afirmar que ela não conseguiu gerir em mim o gosto e o prazer pela leitura. Geralmente o ato de ler estava associado a ler para responder questionário, ler para interpretar, ler para ficar “inteligente”, ler para passar no vestibular, etc. Nunca ler por satisfação e prazer.

Normalmente o parco acesso que alunos e alunas têm à leitura ainda é mediado pelos educadores e educadoras. Comumente livros didáticos, poesias, contos, histórias, textos lidos em sala de aula pouco ou nada têm a ver com as reais necessidades de seus educandos. Só isso já seria o bastante para que os mesmos perdessem seu interesse pela leitura. Contudo, há outros fatores que contribuem para este fenômeno tais como: o pouco ou nenhum convívio com histórias, livros e leitores, carência de espaço físico agradável, confortável e atrativo e pouca valorização ou utilização da leitura pelo grupo social do qual o sujeito faz parte.
Em geral as escolas, e de modo especial as de ensino público, têm pouco a oferecer para os que estão iniciando e aos que já têm algum hábito de leitura. Há pouco material que realmente interesse aos alunos e alunas, comumente o acervo está desatualizado. Embora tal afirmação pareça ser a realidade de muitos lugares do Brasil, há escolas que mesmo com o mínimo estão fazendo belíssimos trabalhos para a democratização e socialização da leitura, “[..] não apenas como correspondência entre sons e letras, mas como forma real de conhecimento, interpretação e compreensão do mundo e do ser humano”. (GARCEZ 1999, p.582).

Considerações finais

Diante de tudo isso é preciso que o educador e a educadora que também são leitores e leitoras busquem sempre numa linguagem simples e objetiva, interagindo não somente com seus alunos e alunas, mas também com a família e de modo geral com a sociedade. É preciso criar oportunidades de leitura que incentivem e estimulem o leitor e leitora a ler, pensar, refletir, partilhar, trocar experiências, etc. Este sujeito-leitor ou futuro leitor deve ser incentivado para ir além do texto impresso, dando vida ao que se lê ligando o conteúdo lido a seu uso social, participando assim de um momento singular de criação e recriação.


Referências Bibliográficas

BRASIL. Lei 9394, de 20 de dezembro de 1996. Dispõem sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996.
FOUCAMBERT J. O que é aprender a ler. Disponível em< http://www.publicacoes.inep.gov.br/arquivos/rbep199_013_331.pdf> Acessado em 01/12/2007.
GARCEZ,L. A leitura na vida contemporânea. Revista Brasileira De Estudos Pedagógicos. Brasília-DF n.199, p. 581-587, 2003.
MOREIRA, F. M e KERBER, M. I. A questão da leitura. Revista norte. Rondônia n. 6, p.45-51, semestral. 2003.

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[1] Acadêmico do 5° período de Pedagogia da Universidade Federal de Rondônia - Campus de Rolim de Moura

 

 

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