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Bullying: novas visões de um fenômeno antigo!

Por: Alexandre Vinícius Malmann Medeiros

Nas sociedades contemporâneas, a violência passa por uma série de transformações, a partir dos anos 60 e 70 do século passado, gerando um novo paradigma da violência, renovando percepções que dela se tem e suas representações, que funcionam por excesso e por carência numa escala global (WIEVIORKA, 1997). Transformações estas que são também uma resposta às mudanças colocadas pelo capitalismo tardio ou pela assim chamada globalização (BAUMAN, 1999).

De acordo com Cléo Fante (2005), o termo inglês Bullying refere-se aos comportamentos violentos e anti-sociais na escola, e a vontade constante de colocar outra pessoa sob tensão e intimidá-la física e emocionalmente. Este processo se dá na ambição do autor do bullying de assegurar sua dominação, numa violência simbólica, por meio de ações físicas, verbais e agressivas repetitivas e permanentes contra seus alvos.

Existe uma grande dificuldade em usar uma palavra em português que se assemelhe ao amplo conceito da palavra Bullying. Segundo Neto (2005):

A adoção universal do termo bullying foi decorrente da dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a realização da Conferência Internacional Online School Bullying and Violence, de maio a junho de 2005, ficou caracterizado que o amplo conceito dado à palavra bullying dificulta a identificação de um termo nativo correspondente em países como Alemanha, França, Espanha, Portugal e Brasil, entre outros. (NETO 2005, p. 165)

Segundo Constantini (2004), o bullying é um fenômeno que expressa idéias de intimidação repetida, humilhação, agressão, ofensa, gozação, emprego de apelidos, assédio, perseguição, isolamento, discriminação, dominação, empurrão, violência física e destruição dos pertences das vítimas deste fenômeno. De acordo com Craig (1998), o bullying ainda envolve a diferença física e psicológica entre os pares, as ações negativas verbais ou físicas e a intenção deliberada de causar dor e sofrimento de forma repetitiva.

È justamente neste período, no final da década de 1970, que o Professor Dan Olweus iniciou seus primeiros estudos sobre a temática, na Universidade de Bergen. O Bullying é fenômeno antigo, mas os estudos sobre esta temática são relativamente novos. Segundo a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA)[1], é fundamental avaliar a natureza e a ocorrência do bullying, pois o ambiente escolar é dinâmico e deve-se levar em consideração as características socioeconômicas e culturais dos alunos.

Adorno (1998) afirma que a falência dos modelos convencionais de controle da violência e do crime na atualidade aponta para amplas transformações dos diversos modos como os sujeitos governam a si mesmos e aos outros na vida social contemporânea. No âmbito das políticas de segurança e das práticas penais, frente a essas transformações, o maior desafio é o de buscar formas alternativas de contenção da violência. Segundo Cléo Fante (2005), o Bullying estimula a delinqüência e induz outras formas de violência explícita, produzindo cidadãos estressados, deprimidos, com baixa auto-estima e incapacidade de auto-aceitação. Assim, combater este fenômeno se faz necessário para a diminuição da violência entre escolares principalmente por suas implicações e conseqüências trágicas.

Nas últimas décadas este fenômeno tem sido pesquisado por diversas áreas. Por meio destas pesquisas sabe-se que a vítima de bullying pode desenvolver sérios problemas psicossociais, ocasionando em suicídio, ou homicídio seguido de suicídio (Ando, 2005; Fante, 2005; Lisboa, 2009; Neto, 2007; Olweus, 1993). O caso mais famoso no mundo ocorreu em 1999, na cidade de Columbine, nos Estados Unidos, onde um jovem de 18 e outro de 17 anos mataram 12 colegas e um professor, deixaram 23 pessoas feridas e suicidaram. Este incidente inspirou o documentário Tiros em Columbine (2002), do diretor Michael Moore, e Elefante (2003), do diretor Gus Van Sant.

Um caso conhecido no Brasil é o do estudante de apenas 18 anos da cidade de Taiuva, interior de São Paulo, em 2004. Ele sofreu agressões durante toda sua vida escolar, e transferiu a colegas de escola ferindo oito pessoas e se matando em seguida.

De acordo com Fante (2005), são inúmeras as formas de violência que nossos alunos brasileiros enfrentam na escola, dentre elas, gozações, humilhações, chantagens, ameaças e intimidações que promovem prejuízos no processo de aprendizagem destes educandos.

Na maioria das vezes as vítimas sofrem caladas por vergonha de se exporem ou por medo de represálias dos seus agressores, tornando-se reféns de emoções traumáticas destrutivas, como medo, insegurança, raiva, pensamentos de vingança e de suicídio, além de fobias sociais e outras reações que impedem seu bom desenvolvimento escolar. (FANTE, 2005, p. 16)



Estamos diante de um processo de aprofundamento sobre o tema e de uma maior compreensão sobre as manifestações do bullying na atualidade, o que demonstra a importância na busca pelo entendimento do processo das relações entre estes jovens e pela possível redução de comportamentos agressivos nas instituições de ensino.



BIBLIOGRAFIA

ADORNO, Sérgio (1999) Conflitualidade e violência. Reflexões sobre a anomia na contemporaneidade. In: Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 10(1): 19-47.

ANDO, M.; ASAKURA, T. Psychosocial Influences on Physical, Verbal, and Indirect Bullying Among Japanese Early Adolescents. Journal of Early Adolescence, Vol. 25 No. 3, August 2005 268-297

BAUMAN, Zygmunt, (1999) Lei global, ordens locais. In: ─. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. p. 111-136; 140-141.

CRAIG, Wendy M. The Relationship Among Bullying, Victimization, Depression, Anxiety, And Aggression In Elementary School Children. In Person. individ. Dif/: Vol. 24, No. I, pp. 123-130, 1998.

FANTE, C. Fenômeno Bullying: Como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas – SP: Verus, 2005.

LISBOA, C. BRAGA, L.L.; EBERT, G.. O fenômeno bullying ou vitimização entre pares na atualidade: definições, formas de manifestação e possibilidades de intervenção. Contextos Clínicos, vol. 2, n. 1: (59-71), janeiro-junho 2009.

NETO, Aramis A.L.; SAAVEDRA, L.H. Diga NÃO para o Bullying. Rio de Janeiro: ABRAPIA, 2007.

NETO, Aramis A. L. Bullying – comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria. Rio de Janeiro, 2005, pags. 164-172.

OLWEUS, D. 1993. Bullying at school: What we know and what we can do. London, Lackwell, 140 p.

WIEVIORKA, Michel. O novo paradigma da violência. Tempo Social. Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 9(1): 5-41, maio de 1997.

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[1] A ABRAPIA é uma entidade privada com fins públicos, idealizada pelo pediatra Lauro Monteiro e fundada em 1988 no Rio de Janeiro, que tem como objetivo a defesa e a promoção dos direitos de crianças e adolescentes. Atualmente suas pesquisas estão disponíveis no site www.observatóriodainfancia.com.br.

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