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A que nos referimos quando falamos de “raízes culturais” em geral?

Por: SUSIE BARRETO DA SILVA

Resumo

O propósito desse artigo é tentar definir o termo “raízes culturais”, com o objetivo de mostrar dois aspectos que são relevantes para a preservação das raízes culturais dos povos que são: a identidade cultural e a memória cultural.

Palavras chaves: Cultura; raízes culturais; identidade cultural; memória cultural.

Segundo o dicionário Larousse raízes tem a“(...) função de fixação, de absorção; base....principio, origem,...algo que prende, vinculo, elo. E cultura (...) é o conjunto de conhecimentos adquiridos, instrução, saber”, em relação a cultura encontramos no mesmo dicionário que é um: “conjunto de valores, símbolos e rituais praticados por uma organização. (...) conjunto de conhecimentos adquiridos, instrução, saber”. Portanto, com base nessas citações pode-se afirmar que raízes culturais é o alicerce, a base, dos conhecimentos construídos e adquiridos e praticados por um povo, ou seja, o principio, a origem, algo que produz um vínculo inicial, representando o nascimento de um elemento da cultura de um povo.

Quando nos referimos ao termo raízes culturais estamos nos referindo à história da construção dos elementos culturais ou das manifestações culturais de uma região. Podemos considerar que as raízes culturais são à base de tudo, o alicerce de uma cultura. São os tijolos da construção histórica cultural de um povo.

É fundamental que as pessoas conheçam o marco inicial dos elementos de sua cultura, pois os elementos culturais se apresentam inicialmente de uma forma bem definida, com o tempo e devido ao desenvolvimento e evolução da cultura, esses elementos sofrem modificações.

Partindo do principio que tudo tem um começo, um inicio e, para que esse começo não seja esquecido, é necessário que esse conhecimento seja resgatado e preservado na memória do povo, para que os mesmos, possam a partir dessa base assimilar as mudanças do presente e as que ocorrerão no futuro. Acredita-se que, para entendermos o presente devemos conhecer o passado.

Supõe-se que não é possível compreendermos as transformações, o desenvolvimento, as mutações da cultura se não conhecemos o ponto de partida. Podemos citar como exemplo o carimbó, que é uma dança típica paraense, que inicialmente se apresentava com uma forma bem definida, com o tempo passou por muitas alterações. O carimbó hoje é bem diferente do que ela no passado sofreu modificações com o tempo, evoluindo para um carimbo mais moderno, com novas roupas, com mais passos de dança e, à música original foram acrescentados novas batidas e instrumentos musicais. Hoje, há no Pará dois tipos distintos de carimbó, um que defende uma prática do carimbo tradicional, enquanto outro, a prática de um carimbo moderno, como afirma Amaral (2005, p.81):

“A continuidade do carimbo como movimento musical que identifica o Pará depende de uma articulação entre tradição e a modernidade, traduzida na idéia do seu reprocessamento, ou seja, enquanto a primeira lhe confere, em qualquer tempo, a autoridade de pertencer ao povo, a última o re-adapta às condições da atualidade”.

As transformações ocorridas no carimbó de raiz são salutares e benéficas, porque demonstra que a cultura do Pará não está inerte, pelo contrário, tem evoluído e se desenvolvido, paralelamente ao desenvolvimento social e histórico do Estado. Todavia, se o conhecimento sobre a formação original do carimbó não for transmitido às futuras gerações, para que possam assimilar todo o processo de evolução do carimbo até os dias atuais, esse conhecimento poderá ser perdido com o tempo. É um conhecimento que faz parte da História cultura do Pará, é relevante que esteja na memória do povo.

Em se tratando de raízes culturais, dois fatores são muito importantes focalizar para a compreensão da necessidade de se manter viva as raízes culturais dos povos: a identidade cultural e a memória cultural.

Identidade segundo o dicionário Larousse é “(...) característica, caráter permanente e fundamental que distingui um individuo ou grupo de outros” Portanto, identidade são os atributos de uma pessoa, ou seja, suas atitudes, estilo, costumes que o distingui, definindo-o entre os demais indivíduos. São essas características que identificam um individuo dentro de uma sociedade. Para Arias 2002, p. 103) “La identidad, por tanto, es una construcción discursiva…” Com base nesses conceitos podemos dizer que identidade é como nos somos, é a definição de onde pertencemos, o que nos diferencia de outros, como nos situamos, como nos identificamos, ou seja, quem somos. Nesse sentido, estamos nos referido ao que somos como pessoa, o que define nossas atitudes, comportamentos, nosso falar, o que gostamos de comer, de vestir e outros. O homem em sua vivência diária, desde o seu nascimento até a fase adulta, vai incorporando, aprendendo, assimilando a cultura de sua comunidade, de seu povo, acaba assumindo características culturais próprias, e essas peculiaridades que vão defini-lo em relação à outra comunidade, a outro povo. Esse conhecimento e definição vêm de nossa cultura, de nossas raízes, pois são elas que determinam o que somos.

Toda identidade tem um ponto inicial, ela vai sendo construida gradativamente, a partir de indagações sobre “quem sou eu”, para Arias (2002, p. 103) “Todo proceso de construcción de la identidad se inicia con la necesidad de autorreflexión sobre sí mismo, la mismidad que hace referencia a la imagen o representación de un “sí mismo”, que nos permite decir “yo soy” esto o “nosotros somos”. Essa reflexão sobre a representação de si mesmo é que permite ao homem situar-se e definir-se como pertencente a esta ou aquela região.

Sabe-se que a identidade não é algo fixo, Arias (2002, p. 103) afirma que: “La identidad solo podrá ser construida en las representaciones e interacciones que se teje con los otros; de ahí que la identidad no sea algo fijo, sino algo que se construye y reconstruye en el proceso de las interacciones sociales”. Segundo o autor não há uma identidade imutável, as pessoas tem sua identidade cultural própria da identificação com suas raízes, porém, essa identidade pode ser construída e reconstruída, pois a partir da comunicação entre as pessoas e da interação que há entre elas, é possível assumir ou incorporar elementos culturais do outro, passando a identifica-se com eles.

Quando o autor Teixeira Coelho diz “Nenhuma identidade é fixa, estável e perene. Toda identidade, como toda cultura, está em constante mutação, dissolvendo-se e liquefazendo-se para se recompor e refazer em seguida sob aparência pouco ou muito diferente.”, ele está se referindo a questão das interações culturais, que faz com que a cultura de uma comunidade acabe sendo inserida ou participando da cultura de outra comunidade e vice-versa, com isso, o individuo acaba adquirindo ou incorporando outra identidade. Porém, nesse sentido, o individuo precisa entender as mudanças pelas quais vai passando e esse entendimento a de vir do conhecimento das suas raízes culturais. Para compreender precisa saber como era no inicio e como foi se transformando, e quais foram às etapas dessa evolução ou transformação. Desvendar a vida faz parte do desenvolvimento humano Todo o individuo tem a necessidade de se conhecer, para saber quem é, e qual o seu papel na vida e na sociedade.

Outro fator importante para se preservar as raízes culturais é a memória. Segundo o dicionário Larousse, “memória é a atividade biológica e psíquica que permite reter as experiências anteriormente vividas. Lembrança, recordação”. Portanto, memória é o ato de guardar permanentemente na mente fatos, situações, vivências e etc, que ocorreram no decorrer de nossa existência.

Essa definição se aplica também a memória cultural, pois o individuo em contato com sua família, com a comunidade em que vive (vizinhos, colegas de bate papo e outros), com seus grupos de relacionamento (colegas de trabalho, igreja, centro comunitário e outros), passa a interagir com eles, e nessa relação ele passa a aprender, a experimentar e vivenciar as particularidades desse processo de inter-relação. É esse processo de inter-relação que vai lhe proporcionar toda a sua bagagem cultural, a qual ficará retida em sua memória.

Acredita-se que, na preservação das raízes culturais a memória é imprescindível, as pessoas precisam ter viva na mente toda à cultura inicial de seu povo. É importante não somente conhecer a cultura de sua região, mas também, conhecer como essa cultura começou, que povos contribuíram na formação dessa cultura, como ela se apresentava inicialmente, quais eram as características peculiares iniciais dessa cultura. São pontos relevantes e necessários ao conhecimento do ser humano na formação de sua identidade cultural.

Segundo (Haigert apud Rouston 2005, p. 102), a memória é importante, pois representa:

“O suporte fundamental da identidade é a memória, mecanismo de retenção de informação, conhecimento, experiências, quer em nível individual, quer social, e por isso mesmo, eixo de atribuições, que articula, categoriza os aspectos multiformes de realidade, (...), A ‘construção’ da memória, por sua vez, está diretamente relacionada ao sentimento de identidade..”.

Rouston afirma que a memória é o que sustenta a identidade de um individuo, pois é ela que guarda todas as informações pessoais, sociais e coletivas relacionados à suas raízes. Ainda segundo o autor, “Sem memória, não há identidade, desaparece a cultura e destrói-se a consciência coletiva. É esta memória e esta identidade que constituem o patrimônio de uma coletividade”. Portanto, identidade e memória estão essencialmente ligadas, um depende do outro para a continuação e evolução da cultura. É a identidade cultural e a memória que asseguram nosso patrimônio cultural, que representa tudo o que fomos, o que somos, o que temos e o que teremos amanhã.

Percebe-se a relevância desses dois termos identidade cultural e memória cultural na preservação das raízes culturais dos povos. Preservar no sentido de manter viva na memória a história cultural de um povo. Preservar no sentido da importância de transmissão desse conhecimento as gerações futuras. Preservar no sentido de não esquecer quem somos, de onde viemos, de nossas raízes.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

ARIAS, P. G. (2002). La cultura. Estrategias Conceptuales para comprender a identidad, la diversidad, la alteridad y la diferencia. Escuela de Antropologia Aplicada UPS-Quito. Ediciones Abya-yala.

COELHO. T. (1997). Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo Iluminuras.

VIEIRA, L. B (organizadora). Costa, C. (colaborador)- 2005. Pesquisa em música e suas interfaces. Belém: EDUEPA.

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Susie Barreto da Silva. Licenciatura Plena em Educação Artística - Habilitação em música (UEPa) - Especialização em Educação Musical (CBM), Mestrado em Educação (UCA). Doutorado em ciências da educação (UAA) (em andamento). Professora efetiva da Secretaria de Educação do Estado do Pará (SEDUC).

susiebarreto@hotmail.com  susalisboa@yahoo.com

http://lattes.cnpq.br/8363559126278470

Rosicléia Lopes Rodrigues Mendes. Licenciatura Plena em Educação Artística – Habilitação em Música (UEPa)- Especialização em Informática na Educação (PUC-MG). Mestrado em Educação (UCA). Doutorado em ciências da educação (UAA) (em andamento). Professora efetiva da Secretaria de Educação do Estado do Pará (SEDUC).

rcleiamendes@yahoo.com.br

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