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Sobre brasileiros e norte-americanos

Por: Paula Bernardi Meira

Sobre norte-americanos e brasileiros

Em meio às diversidades que concorrem para acentuar as diferenças entre as duas culturas, brasileiros e norte-americanos guardam entre si um grande traço em comum: a imaturidade, sob a ótica da adaptação adequada das duas sociedades à vida e à realidade.

No caso brasileiro poderíamos argumentar que a tão propalada cordialidade da nossa gente seria um indicativo de maturidade, porém, o que existe é uma delicadeza, desenvolvida em função das imensas dificuldades encontradas pelos portugueses que, foram obrigados a aprender a lidar com esta terra tropical, totalmente diferente do até então conhecido, tateando, criando dessa forma o “jeito” brasileiro.

Outros fatos de nossa história, que se processaram de maneira incruenta como a abolição da escravatura, proclamação da República ou a implantação do Estado Novo, podem ser entendidos como produto dessa delicadeza brasileira e não prova nossa maturidade.

O povo americano, apesar de sua crença no aperfeiçoamento do homem, sua disposição para o trabalho, seu desapego ao passado, que encontra no seu senso de humor uma fonte inesgotável de conformidade e de alegria, também padece dos males emocionais que nos afligem, prova disso é o consumo maciço de toda a literatura que trate do problema das relações emocionais do indivíduo com a realidade.

Aqui, temos um aparente paradoxo, pois parece haver uma contradição em que tanto o amor como o desamor ao trabalho, tanto o apego como o desapego ao passado, tanto a crença como a descrença na bondade humana, tanto o culto como o desprezo das virtudes econômicas, tanto a discriminação como a indiscriminação racial, tanto o relegamento da religião a segundo plano como o puritanismo, acabem produzindo os mesmo desajustes, porém, isso pode ser explicado por não estarmos lidando com fenômenos da natureza, e sim de fatos impregnados de vida.

Há, todavia, uma tendência inversa que tem se acentuado nos últimos tempos: enquanto no Brasil os desajustes, de modo geral, vêm regredindo de geração para geração; nos Estados Unidos, vêm se agravando, especialmente, após a segunda guerra mundial. Essas tendências contrárias, talvez possam ser explicadas, em parte, pela crise que abala as duas forças motrizes da sociedade americana: o capitalismo e o protestantismo. Por outro lado, linhas mestras brasileiras, como a indiscriminação racial, que foi duramente criticada no passado recente, vão sendo cada vez mais sancionadas pelo consenso universal.

O apego ao passado, que resulta no fenômeno social do mazombismo, no Brasil, tem acentuado seu de declínio desde a Conjuração Mineira, porém, a partir do movimento modernista, esse declínio, passa a ser vertiginoso. Felizmente, o brasileiro diferentemente de outros povos latino-americanos, incorporou o seu passado português ao mesmo tempo que vem assimilando o seu passado indígena e africano.

No que se refere ao desamor ao trabalho, caminhamos rapidamente para a mudança dessa característica, contando aqui com a contribuição dos imigrantes, alemães, italianos e portugueses que vieram resgatar a possibilidade de enriquecer pelo trabalho orgânico.
No caso norte-americano o maior problema está relacionado com o rompimento com o passado, que com o passar do tempo vem se agravando, isso se deve, em parte, ao recebimento maciço de imigrantes ( trinta milhões, entre 1848 e 1940 ). Esses imigrantes são forçados a um rompimento violento com o passado, submetendo a si mesmo e a família aos mais drásticos processos de rejeição da cultura antiga e incorporação da nova, como única forma de ser aceito em terras americanas, essa rejeição a pátria acaba gerando um sentimento de culpa que o indivíduo tenta racionalizar de duas maneiras: uma, dando a Europa por perdida, mergulhada numa decadência irreparável; a outra, magnificando a América, já agora o melhor dos mundos possíveis e imagináveis.
Aparentemente esse problema seria superado após a extinção da primeira geração, porém, isso não vem se verificando; pelo contrário está surgindo um problema de maior gravidade: uma vez que o imigrante não pode ser cidadão americano, na sua plenitude, ele tenta transformar os filhos. Dessa forma o imigrante vai se omitir na criação de seus filhos, que passarão a desejar ser totalmente diferente do pai. O pai é europeu e ele americano? Então a Europa será o vício, o mal, a decadência e a América o bem, a virtude, a honestidade, a decência, a justiça.

É a esta quebra de continuidade entre os imigrantes das duas últimas gerações entre si e os destas com as duas gerações anteriores, em virtude da rejeição do pai europeu como modelo e como autoridade que os psiquiatras e antropólogos atribuem a maior parcela de responsabilidade no condicionamento do moderno caráter americano, com a enormidade das atribulações que o afligem.

Da mesma forma por que, bem interpretada a doutrina liberal conduz aos aspectos edificantes da civilização americana, se levada a extremos pode ser fonte de distúrbios como o infantilismo, a ingenuidade e a debilidade mental. Disney apresenta dois personagens que exemplificam muito bem o comportamento americano: Pluto e Donald, o primeiro se caracteriza pela crença demasiada na bondade humana, o que lhe traz grandes frustrações; o segundo, representa o lado competitivo do americano, Donald, apesar de sempre levar a pior acredita na competição, na livre empresa, na concorrência, na publicidade e no êxito.

O erro está no conjunto integrado da cultura americana, com a distorção de todos os valores em favor da valorização do trabalho, com o conseqüente banimento do repouso, da auto-análise, da reflexão e da contemplação, de entre os hábitos pioneiros da América, foram ensinados a amar o movimento a considerar o repouso como um vício e a ver no ócio um pecado.

No que diz respeito a produção de bens materiais, não se pode desejar mais nem melhor, o problema está relacionado com a produção intelectual, o professor, o investigador científico, o inventor, em suma, o criador, não pode ser submetido à disciplina que prevalece para o produtor de bens de consumo. Embora, muitos americanos percebam que alguma coisa está errada, não há vontade sincera de mudar, pois as três grandes forças da sociedade americana, supostamente em conflito, convergem no mesmo sentido: O imigrante nada quer mudar, porque está cansado de violentar-se para novas adaptações; o americano de trezentos anos nada quer mudar, porque, por definição, é um conservador; e o americano de última geração, esse não quer mudar, porque mudar é pensar e pensar não faz parte de seu costume e nem sempre tarefa agradável. Daí a manutenção das linhas mestras de sua cultura.

Há, aí, um drama nacional, o drama patético de um país que, tendo as melhores escolas de Música, não produz um grande músico; que, tendo os melhores professores de Filosofia, não mais produz um grande filósofo; que, tendo os melhores professores de artes plásticas, não produz um autêntico grande pintor ou um autêntico grande escultor.
Nós, americanos e brasileiros, devíamos empreender uma jornada ao longo das histórias do Brasil e dos Estados Unidos e ver se nessas largas estradas que guardam o segredo de nossa formação podíamos encontrar símbolos que tendo vivido e sofrido os nossos problemas no corpo e na alma, fossem capazes de nos inspirar na retificação das linhas mestras de nossas respectivas culturas.



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